Seria o relato de uma tragédia anunciada, não fosse pelo sol brilhando lá fora enquanto acordavam assustados…

O vinho estava no caminho como uma confissão aberta de algo que nunca deveria ter acontecido, mas que fora desejado. Como um organograma de arquétipos que já estavam há muito enterrados e esquecidos, mas que não nasceram do acaso, foram colocados ali pelos dois. Havia uma taça de vinho ainda na metade, a outra vazia e que ninguém sabia explicar qual era de quem. Eles estavam no sofá da casa dele e a sala tinha um aroma característico de uma noite pesada entre sexo, pecados, segredos relevados e álcool… Isso era o que exalava seus corpos – a mistura de odores, sentimentos, arrependimentos e pesadelos personificados…

Ela olhava pela janela, quase sem vida. Era possível ver apenas a parede branca do prédio vizinho, mas em seus olhos era um infinito que tentava remontar a noite passada e o caminho até estar ali – sem as roupas, ouvindo o barulho de uma vida normal fora, mas sem forças para se mover e encarar a realidade que estava despedaçada em seus pés…

Ele tentava recolher as roupas, ajustar os pontos normais de um convite desejado há semanas e planejado perigosamente até ali. Não era para durar tanto, mas a química dos dois levou-os madrugada adentro, ignorando as terríveis consequências do que aquela noite criou. Por mais que ele se esforçasse em recolher tudo, estava ali escancarado e quebrado demais para consertar…

O telefone dela tocou ao mesmo tempo que a porta se abriu. Ali estavam expostos à verdade extrema e o mundo começou a desabar sem as paredes ao redor se moverem…