Uma semana depois e a sensação de invasão da primeira consulta ainda ecoava. Sentei-me na mesma poltrona de couro marrom. O terapeuta me observou em silêncio por alguns instantes, cruzando os braços. O tom dele hoje começou ligeiramente mais afiado.
Ali estava em minha primeira sessão. Me ajeitei da melhor maneira possível e não pude deixar um leve sorriso irônico brotar no meu rosto. Eu jamais me imaginei naquela situação…
Talvez fosse aquilo que chamam de fundo do poço. Não tinha mais energia para a rotina, não tinha mais chama de alegria e algumas vezes sentia meu coração palpitar apenas de pensar no dia seguinte…
A chuva de quarta-feira tinha o peso de um segredo revelado e o cheiro de asfalto úmido que limpa a poeira das mágoas…
Para ele, a partida dela não foi um adeus; foi uma demolição controlada onde apenas ele estava dentro do edifício…
Ela não partiu por falta de afeto, mas por uma fome de mundo que o amor dele não conseguia saciar. O “nós” havia se tornado um jardim bem cuidado, mas ela queria o gosto do asfalto…
O crochê era sua atividade predileta, estava em sua vida havia quatro gerações – daquelas coisas que passam da bisavó para a avó, para a mãe, até chegar nela…
O seu sorriso de dia, com os olhos brilhantes e passos seguros na direção certa, mostrava um homem convicto e firme de seu mundo…
Ela chegou do trabalho mais cedo do que o habitual. Não havia um sorriso em seu rosto, mas alguma pequena chama de esperança em seu olhar…