Não foi inesperado, pois tudo poderia acontecer. Todos sabiam que o mundo poderia desabar depois daquele beijo quente…
A situação toda seria difícil de descrever. Era difícil definir o que aconteceu antes… Se foi as coisas indo ao chão, o grito de desgosto, o choro repentino ou os clichés existentes de quem tenta negar o óbvio. Foi uma junção de raiva, traição, medo, nervosismo e pavor. Ela ainda tentou cobrir o corpo nu com o lençol da cama, mas isso fez com que a colcha batesse nas taças que estavam no chão e, além de todos os pontos anteriores, as taças se quebraram – justo elas que foram compradas pensando na felicidade do casal nas noites frias de inverno.
Ele tentou acalmar a sua esposa que berrava até cansar as cordas vocais, tentando aliviar toda a raiva e ódio que ela sentia no momento. Em um momento, se trancou no segundo quarto e, entre soluços e lágrimas, informou o restante dos amigos – todos daquele grupo falado anteriormente – o que estava acontecendo na sua própria casa. Não faltou muito para o telefone dos dois tocarem e decidiram seguir adiante. Juntaram as poucas roupas e saíram para tentar aliviar e repensar em tudo o que estava acontecendo.
Desligaram os celulares e ficaram todo a manhã em silêncio. Era como se estivessem mortos e, por muitos momentos, preferiam que isso fosse verdade. Evitavam cruzar os olhares e, mesmo que a noite tenha sido eletricamente boa, havia um certo arrependimento velado em seus atos. Vez ou outra um deles tentava falar algo, mas era como se a força do silêncio fosse mais forte e acabavam desistindo…
Horas depois, em uma cafeteria qualquer, perdida em um bairro que eles não conheciam, ela enxugou as poucas lágrimas que brotaram em seu rosto e quebrou o silêncio.
“Tudo acabou. Tranquilo. Estou triste, é claro, mas não dá para negar que fiz tudo de plena consciência. A gente não pensa no lado ruim, apenas no bom. A gente não pensa no certo, apenas em aliviar toda a tensão, pressão e desgosto que temos recebido na vida. A gente não pensa no outro, nunca pensamos na verdade, apenas na gente, porque a gente também quer ser feliz… Enfim, foi bom ontem, certo?”
“Sim. Foi. E eu te entendo quando…”
“Não! Chega de me entender… Seja meu amigo no silêncio também. Sorria para me alegrar e vamos voltar e ver o que resta. Me protege no apedrejamento que estamos adiando sem saber por quê?”
“Sim. Estamos juntos nessa…”
“Eu te ajudo. Você me ajuda.”
“E depois?”
“Não tem depois ainda, parece que o mundo acaba hoje. Amanhã é uma nova vida e eu nem sei como eu estarei… Nem você. Sejamos concretos, como você sempre foi.”
Ele sorriu, pegou sua mão, ela sorriu e beijou sua mão entrelaçada. Depois, ela pegou o celular e se levantou da mesa…
“Posso ir primeiro? Tenho meus problemas para resolver e acho que devemos fazer isso separados.”
“Como queira…” entregando a chave do carro, sem desejar boa sorte. Não cabia isso no momento.
Ele ficou ali, olhando-a ir para o seu carro enfrentar o mundo completamente destruído, assim como o dele. Ele a viu se agitar enquanto falava e tentava imaginar o diálogo que acontecia. 5 minutos depois ele se desligou do mundo ao redor e tentou criar um caminho para a sua justificativa. Era o seu pior momento, mas que parece ter sido desenhado pelo destino… Ele sorriu de nervoso quando ela voltou 35 minutos depois, suspirou e disse “Fim” – ele achou engraçado, pois nunca acreditava em fins e era essa a ironia que a vida preparou para ele…
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