Havia algo em seu olhar que ele não conseguia explicar. Era uma tensão palpável, talvez por conta da força da situação…

Fazia mais de uma década que eles não se encontravam. Era como se fossem novas pessoas, mas que mantinham um conhecimento íntimo de anos atrás. Ou de uma vida toda atrás. Ambos haviam mudado fisicamente – Afinal, ninguém se mantém o mesmo depois de mais de 10 anos. O pouco, ou quase nulo, contato entre os dois se baseavam no sexo que nunca haviam feito e era desejo de ambos. As conversas sempre aconteciam nos momentos de carência de um ou outro. Com mensagens, fotos, perguntas e explicações das aventuras que já haviam vivido nessa vida que eles nem conheciam…

Ele a convidou para uma cerveja no bar que ele sempre frequentava. Haviam outros amigos, mas tentaram manter uma aparência fútil de que estavam apenas “curtindo o momento”. Tentaram criar uma normalidade, mas não sabiam muita coisa da vida um do outro. Também não queriam falar abertamente sobre o sexo para não partirem para uma vulgaridade sem razão.

Ficaram no terreno do passado. Reviveram e riram de situações vividas e tentaram resgatar os antigos amigos, tentando adivinhar onde e como estavam as pessoas que viveram juntas na rotina de vinte anos antes. O que foi engraçado no início, mas depois perde o sentido… Nessa hora, se despediram dos outros amigos e, sem nenhum outro convite, foram para a casa dele. Não houve beijo no caminho ou um algo a mais. Era como se estivessem no automático para algo desejado…

O sexo foi intenso. Quase perigoso e com a urgência de tornar realidade, tudo o que falaram virtualmente por anos. Mas tudo pesou contra. Talvez a falta de química, do encaixe. Da falta de sincronia do beijo, dos amassos e das posições que ela gostava e que ele não conseguia fazer e o contrário. Talvez a situação toda tenha levado muito mais na afobação, do que no desejo real.

Gozaram com muito custo e não tiveram mais razão para voltar e tentar novamente. Tentaram um diálogo normal, mas ambos sabiam que não iria funcionar… Não queriam admitir, mas mesmo se conhecendo há tanto tempo, no final eram dois desconhecidos tentando se tratar de maneira diferente, para fingir um afeto que não existia.

No fim da noite, ela se foi por causa do trabalho no dia seguinte e ele abriu uma última cerveja para repensar em tudo. Ele esperou uma mensagem dela avisando que estava em casa. Recebeu um emoji de beijo com “obrigada pela noite. Vamos repetir hein?”. Soava falso, longe e completamente insano. Ele sabia que iria demorar mais 10 anos para que fosse acontecer de novo…