Ela quis desabafar o incontrolável. Queria se abrir para um desconhecido de papel…

Por mais que inventasse desculpas ou curiosidades rasas, a verdade era que ela precisava contar suas angústias. O mais seguro era fazer isso. O que poderia acontecer com ela, seus segredos, suas intimidades e uma infinidade de segredos revelados? Nada! O desconhecido não sabia seu endereço. Era um nome morto e impessoal na sua lista de amigos. Ainda mais, estava longe o suficiente para ser tocado, lembrado ou visto pelas suas andanças.

E assim o fez. Começou contando futilidades desconexas da vida. Problemas de intimidade e insegurança dos tempos presentes. Logo evoluiu para lamentações do mundo, da falta de amor e companheirismo e do estranho desejo de cometer loucuras controladas…

Se sentia viva fazendo isso. Era como uma traição sem contato físico. Foi criando seu próprio estilo. Criava uma história dramática, mas a cada conjunto de palavras, um desabafo camuflado aparecia. Só ela entenderia, ela dizia… Só ela conseguiria perceber o quanto de verdade havia na história criada.

E foi assim que passou os meses. Acordando, inventando histórias, camuflando desabafos e ignorando o amor. Esse mesmo amor que ela uma vez sentiu e deixou apagar. Esse mesmo amor que ela achava invencível, mas que ela deixou escapar em algum lugar. Em alguma história do passado…

Foi essa a razão para tudo isso. Ela percebeu que camuflou o amor quando ele morreu. Agora precisava recriar histórias para perceber onde é que ele ficou e assim decidir o que fazer com a falta que ele deixou em sua vida…