Ele era sempre o primeiro cliente daquele café. Um hábito que surgiu do nada e se enraizou na vida de todos ao redor…

Era um café de esquina igual à tantos outros na cidade. Um cruzamento movimentado e outra rua de escape para um trânsito confuso, mas que piorava com o passar dos anos. O café abria todos os dias às 7h da manhã. Às 7h10 recebia seu primeiro cliente que sempre chegava por volta de 6h40 e esperava até 7h10 para cruzar a esquina oposta e cumprimentar os funcionários. Era João. Havia apenas um nome, sem sobrenome. Não havia uma idade certa, beirava os 50 e poucos, mas poderiam ser menos ou mais, e apesar de ir todos os dias ali, nunca fazia aniversário. Sempre sorria e se ajeitava na mesa 03 – a mesa à esquerda da porta e fincada na parede do prédio. João sempre trazia flores frescas que as dispunhas em um dos inúmeros vasos que ele mesmo comprou anos antes. Dia após dia, ele escolhia o vaso com flores mais velhas e trocava por novas. Esse ritual era realizado enquanto esperava o seu pedido. Café com leite grande e uma torrada com manteiga.

João era de conversar. Gostava de esportes, se irritava com política, ficava assustado com as notícias do mundo e também palpitava nos rumos do mundo moderno que ele tanto parecia entender. Mas poucas eram as palavras quando o assunto se tornava pessoal. Ninguém sabia dizer quantos anos ele frequentava aquele café. Ninguém tinha certeza quando começou e nem o porquê. Ninguém sabia onde ele morava ou o que fazia da vida depois dos 40 minutos que ficava ali. Da mesma maneira que chegava, ia embora. Deixava o dinheiro na mesa, a gorjeta inclusa, acenava para todos e se ia. Vinha de uma direção e ia embora por outra, como se aquele café fosse parte do seu caminho diário.

De vez em quando, porque não era algo diário, ele sacava de sua mochila um caderno e começava a escrever memórias. Quando perguntado a razão de fazer essas anotações, dizia que já tinha se arrependido de algumas lembranças que vieram de repente e se perderam em algum lugar obscuro da sua mente. Para evitar essa dor de esquecimento, escrevia sempre que uma boa história pipocava em sua cabeça. “Mas quando vai publicar esse livrão?” perguntava a jovem garçonete. Ele apenas ria e falava quando estivessem completas. E internamente sabia que era mentira, pois nunca completaria essa tarefa.

Certo dia de outubro ele não apareceu. Todos se lembravam com exatidão do dia, pois chovia muito e a cidade amanheceu bagunçada demais daquela tormenta incompatível para todos ali. Então não estranharam a ausência, pois muitos também foram afetados. Mas no dia seguinte também não apareceu. Nem no outro. Com uma semana de ausência, pensaram que estava viajando de férias e, por não gostar de falar da sua vida pessoal, não havia comentado nada. Meses depois começaram a fazer uma busca retroativa na lista dos óbitos dos jornais da cidade e não encontraram nenhum João que havia falecido em outubro. Alguns em novembro, mas nenhum parecia morar pela região.

As flores murcharam e morreram. Os funcionários no início se forçaram a comprar mais e trocar, na esperança que o João voltasse e encontrasse os seus vasos vivos novamente. Mas seis meses depois eles desistiram. Os funcionários também se foram – com toda rotação existente em pequenos negócios. Apenas o dono e a cozinheira sobraram. E não existia mais nenhuma memória de João por ali. Se você fosse perguntar sobre um cliente assíduo, que enchia aquele pequeno café de flores e rotina, ninguém saberia te explicar ou poder comentar nada além de um sorriso leve de desconhecimento.

Exatamente um ano depois da sua última visita, o livro apareceu na porta do café. A única testemunha foi uma câmera de segurança que foi apagada dias depois, pois ninguém requisitou uma cópia. Nela aparecia João tranquilo chegando pouco antes das 6h da manhã. Abaixou e deixou o livro no pé do café. Sorridente, seguiu o caminho como fez durante anos, às 7h50 da manhã. O título era “Memórias de um café” e na primeira página, como se fosse uma dedicatória, escrito de próprio punho se podia ler: “Aqui fiz rotina. Trouxe vida e cores frescas para uma esquina cinza e quase sem história. Não fiz amigos, mas criei rotina. Não criei laços, mas trouxe risos. Não fui para sempre, mas fui de tempo certo. Mesmo assim, as cores desbotaram algumas semanas depois e hoje, exatamente um ano depois, a esquina que antes tinha vida, voltou a ser cinza como antes. Nunca espere que os outros floresçam sua vida, se você não aprender quais são as suas cores prediletas e como elas podem mudar o seu redor.”