Me diz uma coisa que você sempre vai lembrar de mim? Foram as primeiras palavras que ela me disse naquela manhã…
Era um domingo preguiçoso e comum por ali. A noite anterior havia sido de uma festa que passamos um pouco do limite e ainda estávamos rindo das situações passadas e do pequeno caos que o quarto se encontrava. Mas a pergunta ficou suspensa no ar ainda impregnado de perfume, álcool amanhecido e madeira. Demorei uns segundos processando as palavras e tentando me situar naquela situação, pois foi uma surpresa o assunto surgir do nada. Era como se ela estivesse arquitetando um momento para perguntar aquilo, mesmo que nada ao redor fizesse conexão com o assunto em pauta.
Estávamos saindo há poucas semanas e o envolvimento para algo mais sério passava bem longe dos gestos e das conversas anteriores. Sabia que ela logo iria para outro – se é que já não estava com outros também. Não éramos exclusivos. Tínhamos vida fora daquela bolha invisível que criamos quando queremos curtir alguém sem culpa do mundo exterior, mas quando saíssemos da porta, já arquitetaríamos os nossos outros contatos e entraríamos em uma fila para nos vermos novamente.
Ela saiu dos meus braços, sentou com a camisa cobrindo suas pernas nuas e me encarou com um sorriso malicioso que ela tinha tão natural, que talvez fosse a razão de gostar dela.
“Ok bobinho. Eu respondo primeiro já que provavelmente eu seja uma qualquer que não tem nada de especial para você se lembrar…”
“Já sei… Vai falar do meu sorriso…”
“Não. Ele é lindo e me cativou desde o início que você falou comigo.”
“Agora ficou interessante, porque nem eu sabia que tinha algo a mais – já que nem cabelo eu tenho.”
“A segurança, Má.”
“O quê?”
“A segurança que você me transmite. É algo que nem eu sei explicar… Mas é algo presente não em você, mas COM você. É uma sensação que eu nunca senti com ninguém – nem com meus pais, muito menos com meu ex-noivo. É algo meio mágico até, mas quando eu estou com você eu sinto que nada ruim vai acontecer. Faz semanas que a gente sai e toda vez que você me dá a mão, eu me arrepio porque é uma sensação tão forte e tão boa, que eu desejo aquilo para sempre.”
“Uau…”
“É! UAU! Porque eu comentei isso com as meninas e nenhuma nunca sentiu isso também. Elas falam que gostam da tua presença, que você é engraçado, que tem um humor perceptivo e tudo mais, mas isso vai além de criar um ambiente legal. É algo que sei lá, vem de dentro de você. Ninguém te falou isso?”
“Nunca. Estou até assustado agora, porque nem sei se consigo me proteger, quem dirá outras pessoas.”
“Você sabe sim. Nunca te aconteceu nada, e mesmo quando aconteceu, certeza que foi algo bem mais leve que outras pessoas…”
“Nem lembro, mas acho que isso é normal.”
“Não, Má. Te juro que não! E relaxa que não é amor ou paixonite adolescente de menina que nunca passou por nada da vida. Eu não to apaixonada por você, fica tranquilo. Mas isso é algo que eu tenho certeza que sempre vou lembrar de você.”
Ficamos ali mais alguns segundos em silêncio, de mãos dadas e olhando para tentar entender se havia algo além de um par de dedos entrelaçados.
“O seu jeito carinhoso de preparar um simples café da manhã”
“O quê?”
“É isso que sempre vou lembrar de você. Seja aqui ou na minha casa. Você sempre tem um cuidado único para preparar um simples café da manhã. Já te disse mil vezes que não como nada de manhã, no máximo um suco para engolir os remédios e já era. Mas todas as vezes que saímos e dormimos juntos, eu anseio para a manhã seguinte, porque sei que você vai inventar qualquer coisa simples, preparar com o maior carinho possível, e depois vai me dar esse sorriso malicioso que Deus te deu para completar tua beleza.”
“Mas é sempre um misto quente. Nem tenho receitas elaboradas como você…”
“Eu preparo as coisas brutas. Tudo meu é meio jogado, nada uniforme. Você não. Você leva aquilo como uma matemática – eu sou o ogro que faz comida para uma tropa…”
“hahahaha… Imagina se a gente casar e perguntarem porque a gente está junto e você responder – ‘porque ela faz um café da manhã bonito’…”
“hahahaha… Tem o sorriso malicioso depois. É tipo um combo. Mas eu não sou para casar…”
“Besta. Eu sei que não… Relaxa.”
“Estou tranquilo…”
Ela me beijou com uma sensação de alívio e logo tirou minha camiseta. Transamos leve e de forma bem intensa naquela manhã. Depois ela se levantou, vestiu apenas um short e foi preparar o café da manhã. Eu fiquei ali, parado no balcão da sua cozinha, admirando o jeito que ela cozinhava e ela me olhava e sorria – forte e intensamente – como eu sempre me lembro. Depois do café, tomamos banho e fomos passear pela cidade ainda despertando. Caminhamos a esmo, passando por pontos turísticos e locais que já conhecíamos. No fundo sabíamos que seria a última vez daquela cena, mas ninguém tocou no assunto. Eu a deixei em casa depois de umas duras horas, a beijei forte e combinamos um novo encontro num próximo final de semana que nunca aconteceu….
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