Parecem pequenos obstáculos, mas que castigam mais do que as tormentas de um inverno sem fim…

Eu perdi a cabeça há muito tempo. Um tempo que já não consigo sequer contar ou descrever. Não sei qual foi o ponto inicial, muito menos como tudo foi evoluindo até chegar a esse estado de catarse reversa — porque nada aliviou, nada causou qualquer motivação para seguir adiante. Acordo todos os dias com o medo real de sair e enfrentar um mundo inofensivo, mas que eu transformei, sabe-se Deus como, no meu maior vilão.

Meu coração foi destruído tantas vezes que talvez tenha sido aí o início dessa história mal contada. Quando a vida parecia querer crescer, eu confiei em melhoras, em recuperar o fôlego perdido da fuga anterior — mas tudo acabou por naufragar no porto seguinte. E no seguinte. E no seguinte também…

Agora, cheguei ao estado de temer até mesmo voltar para casa. Vago por sinopses conhecidas e me escondo em sombras para que a luz não brilhe e eu não enxergue novamente tudo aquilo que me fez andar sem rumo. Vago tão sozinho há tanto tempo que acabei me acostumando com a ausência de alguém ao meu lado. Acostumei-me tanto ao silêncio que não reconheci a minha própria voz quando me perguntaram o meu nome. E, sem reconhecer nenhuma parte de mim, passei a temer até mesmo meus próprios pensamentos…