Era um fim de tarde como outro qualquer naquela cidade. As pessoas saiam e entravam dos bares, gerando um ritmo contínuo e carregado, mas nem sempre engraçado…
O barulho era além do normal para o dia. Jogavam duas seleções e o ânimo era dividido entre os que torciam por uma ou outra. Não havia briga, era apenas a tensão natural da partida. Risadas e agonias se mesclavam claramente em uma coisa só. Piadas e insultos leves eram sempre ouvidos e revidados por aqui e ali. Mas dali um instante, naquele meio entre um gol a favor e outro contra, os olhos se cruzaram sem esperar outra reação.
No início foi a simples razão de estarem no mesmo lugar e as piadas foram parte da conversa. Mas parecia mais que isso, havia algo a mais no jeito que ela o olhava e sorria ao mesmo tempo em que o percorria com os olhos. Ele percebeu, mas a timidez fez com que houvesse uma distância entre os dois. Ele a ajudou a entender um lance e concordou até com o que discordava. O perfume não era marcante, daqueles que você esquece no segundo seguinte e não consegue lembrar mais, mas era gostoso para o momento.
Eles se despediram no final do jogo com um beijo comum, mas um abraço mais longo que o de costume. “Adorei a torcida, nos vemos no próximo?” perguntou ela e ele prometeu que sim. Uma pausa comum de algo que poderia ter sido memorável, mas que a vida quis que não fosse – ou talvez fosse culpa de algo oculto…
O próximo jogo demorou, mas a agenda o ajudou a chegar ao mesmo local de antes. Ele não iria admitir, mas estava ansioso pelo reencontro. Tentou treinar algumas piadas fáceis para o primeiro abraço e até algo mais atrevido para ver como seria a reação. Cinco, dez, quinze minutos e o jogo já havia começado quando ele se deu conta que ela não viria. Foi embora pouco antes de terminar e tocou a vida rindo do que orquestrou para aquele quente verão. “Seria muito capítulo de novela mexicana isso…” e esgueirou-se com o copo cheio no próximo bar para acompanhar outro jogo qualquer…
Mais de uma semana depois, retornou com outros amigos no mesmo bar. A surpresa era que ela estava lá. Seus olhos se cruzaram, mas não havia um sorriso e sim, o disfarce de algo que não se espera. Ela desviou os olhos e ele pensou que ela não havia o reconhecido, mas depois havia alguém ao seu lado. Só daí que ele reparou no anel de compromisso na mão dela e entendeu a razão do disfarce. Continuou sua diversão com amigos, mas uma hora se esbarraram no bar sem querer. “Então, você tem namorado?” perguntou ele meio sorrindo, mas com certo despontamento na entonação. “Sim, talvez desculpa por isso, mas é isso, ok?” e ela saiu com sua bebida e sem o que mais o chamou atenção, o sorriso que o percorria com os olhos brilhantes de atrevimento.
E ele nem notou o perfume quando ela saiu, até porque nunca foi o mais marcante nela…
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