Há exatos dois anos eu iniciava um novo capítulo de vida. Dois anos eu entrava em um avião, com 29 quilos de bagagem e estava pronto para iniciar uma nova história…

Sofro, como todos que vivem ou viveram como eu, com a dificuldade das pessoas entenderem a realidade. É engraçado o olhar de deboche e desprezo que as pessoas me dão, ao contar algo ruim, uma luta ou dificuldade qualquer. Eles não se esforçam para compreender as razões, os pontos que existem por detrás e o brilho do sonho existente – que muitas vezes brilha sozinho sem nenhuma alegria de apoio.

Para muitos a vida no exterior precisa ser feliz, bem-sucedida e fácil. Para muitos, é inconcebível você ter largado apartamento, carro, trabalho bom, família e amigos, para viver sozinho em um ambiente hostil. Para muitos é imbecilidade sair ganhando MENOS do que se ganhava no Brasil. E quando escuto essas indagações eu fico imaginando: Onde estão os sacrifícios dessas pessoas? Todas as mudanças que eles passaram (se é que passaram) foram 1000% melhores e nunca houve nada de errado? A resposta sempre é uma profunda decepção.

Sim, há exatos dois anos eu chegava na Europa para viver uma vida completamente diferente. Ao invés do apartamento próprio (e pago), um quarto apenas e dividir o resto da casa com desconhecidos. Ao invés de um carro (pago), um ônibus ou uma bicicleta zuada para o dia a dia. Ao invés de um salário “alto”, um salário médio e “menor” (no início até no valor convertido) do que se ganhava antes e trabalhando na posição de quase 10 anos antes… E tudo isso sempre muito pensado e pesado, pois valeria a pena… Valeria a pena para conhecer uma nova cultura, um novo jeito de viver. Viver novos desafios, nova língua, rotina, um novo começo, um novo horizonte, uma nova morada (ou muitas, como é o caso) e ter novas histórias para contar.

A vida aqui é igual ao Brasil. Existem dias bons e ruins. Existem dias que a gente quer voltar. Existem dias que a mala é aberta e o desejo é largar tudo e jogar uma bomba por aqui. Existem dias que a solidão é implacável – e você não tem como lutar contra ela, porque nem sair você consegue. Esses dias existem e são corriqueiros, mas ninguém enxerga – ou não querem enxergar… Enxergam o prato bonito, a paisagem legal, a viagem do fim de semana, o sol brilhando e imaginam que tudo é barato e sem sacrifício algum, até porque a vida aqui é fácil e tranquila.

Ninguém enxerga que, como no Brasil, se quer viajar um mês, precisa economizar nos outros (plural). Ninguém enxerga que a gente ganha em Euro, mas gasta em Euro (e, lembre-se que ganhamos menos). Ninguém pensa que lá fora é frio (de pessoas e de clima). Que existem inúmeras pessoas invejosas, que querem se aproveitar e vivem em uma bolha de ilusão e precisam de algum otário para continuar sustentando a fantasia. Ninguém lembra que amizade praticamente não existe e os poucos “amigos” que a gente encontra, são pessoas que estão quebradas e fragilizadas com todo esse choque descrito, mas se ajudam sem nem saber teu nome direito. Esquecem que, atrás de uma viagem na quinta-feira, existe um trabalho de fim de semana ou um dia a menos para ficar com a família no Brasil. Por trás de uma viagem de fim de semana, existem meses trancados na solidão, apenas sonhando com essas “escapadas”…

E por que viver tudo isso? Pelos objetivos. Ninguém vem para Europa e larga a vida, “só para ver qual que é”. Cada um tem um objetivo, mesmo que abstrato, que assombra e vira o foco para se acordar e lutar. Seja profissional, pessoal ou financeiro. Cada um que está aqui, sabe o ponto de largada, chegada e a razão por viver tal situação “inconcebível”. Muitos se iludem, esquecem do objetivo e se perdem pelo caminho. E como eu disse… Aqui é igual ao Brasil onde temos inúmeros amigos-conhecidos-parentes que estão com uma “vida OK, mas completamente perdido e sem objetivo claro”. Muitos desses me olham com deboche, mas é sempre pior enxergar o próprio buraco…

Então eu me calo e continuo meu caminho. Meus objetivos e sonhos estão no início. Posso ser bem-sucedido e realizar todos eles. Posso falhar e ter que recomeçar (aqui ou em qualquer outro lugar), sem vergonha alguma e sabendo que eu, hoje, estou bem mais preparado do que antes. Pode parecer bizarrice, mas é prazeroso ver que em apenas dois anos, atualizamos o significado de palavras que antes eram tão concretas: limite, possível, impossível e sacrifício, são apenas alguns exemplos.

E seguimos aqui. Sozinho ou não. Sorrindo mesmo na mais pura aflição, com o coração apertado muitos dias, mas certo que vou até onde eu quiser – e como eu quiser…