Os corpos dos dois se desvencilharam. A voz dela era baixa demais e ele nunca entendia se ela estava sendo superficial ou realista com a situação toda…

Era uma noite de verão, daquelas que parecem ser mais tarde do que realmente é. O calor contagiava os olhos e guiava as ações seguintes. Eram novas descobertas, eram velhas histórias recontadas, eram uma forma de fuga e um alívio de sucesso. O verão tinha esse poder – levava as pessoas ao máximo, deixando uma certa leveza no ar e todas razões e motivos eram explicados apenas com o “era uma noite de verão…”. Essa frase foi muito usada pelos dois. Era como se fosse um mantra, mas sem culpa. Graças à essa frase, eles tinham suas histórias para contar…

“Se você quiser, eu já vou embora” disse ela de um jeito difícil de perceber o que significava. Talvez ela quisesse ficar, talvez ela realmente quisesse ir. Os olhos delas nunca carregavam motivos ou significados, tornando assim uma tarefa complicada de percepção. Ela ainda estava sem roupa, suspirava com o misto de calor, tesão, alegria e alívio. Estava leve e parecia completa ali, naquele momento, mesmo em uma posição qualquer. Ele sorria ao seu lado, ofegante e se recuperando da transa que mal acabara de acontecer.

“Não gostou?” questionou ele, tentando sorrir e inquieto com a frase dita anteriormente.

“Óbvio que sim, mas já está tarde e amanhã preciso trabalhar…” explicou ela.

“15 ou 20 minutos não vai te atrapalhar né?”

“Não, nem um pouco… Mas se quiser, eu vou”

Ele não respondeu, pois achou que não precisava. Virou-se para ela e beijou seus ombros, apoiando a cabeça nas suas costas e ofegaram, os dois por alguns minutos. Eles não eram nada além disso. Uma aventura de verão. Um ponto que a frase dita no início, fazia sentido. E estavam alegres com essa falta de “ser algo”. Nunca foram. Era uma trama bem armada, orquestrada e com limites e razões bem claras e diretas. Estavam satisfeitos e felizes. Pelo menos ele achava isso. Ela também, mas não o deixava perceber. Talvez por um jogo em sua cabeça ou uma autodefesa que nem ela sabia como pontuar, explicar ou descrever. Mas ela achava engraçado o jeito dele e sempre gostou da clareza e limites impostos.

“Quer mais?” perguntou ela depois de ficar olhando para o corpo dele enquanto descansava.

“Melhor que dormir para o trabalho né?”

E recomeçaram em um ritmo mais ameno, mas mesmo assim com aquele ritmo e apetite único que eles tinham. Como se fossem descobrir novos métodos e novas partes do corpo que já estavam bem acostumados. Ofegaram os dois e deitaram um ao lado do outro…

“Gosto disso, sabia?” disse ela em uma voz mais enigmática que o normal.

“Disso o que?” Ele perguntou tentando entender até onde iria aquela conversa.

“Esse nosso lance. Sexo, gozos, limites e adeus”

“Ahn?”

“É… A gente é assim e eu fico feliz. Sei que é agora e me esforço para guardar tudo isso para o amanhã. Você nunca está aqui depois, a gente nunca se viu uma segunda noite e isso me deixou acostumada. Sei que é agora e fico feliz que você ainda tem essa vontade e curte esse tempo como eu…”

“Mas…”

“Não, relaxa… Eu estou bem de boa. Fico feliz mesmo e me sinto bem completa com isso. É pouco, mas acho que é o máximo que terei de você. Talvez, se eu tivesse você por uma semana, tudo ia desmoronar e nunca mais nos encontraríamos ou teríamos uma mágoa ou coisa pesada. Não. Não temos isso. E isso é bom.”

“Se você diz…”

“Você concorda, mas tem medo de admitir…”

“Concordo, mas nossa superficialidade é talvez o que nos mantém vivos. Se, como você disse, tivéssemos uma semana, os problemas e nossas manias iriam se sobrepor. Hoje a gente não tem isso. A gente se encontra, curte e vai embora. A vida é mais leve e acho que esse é o caminho desde sempre. Criamos isso juntos e não é desrespeito. É apenas o jeito que somos…”

Ela o beijou com vontade. Era como se aquilo fosse um “acordo” entre ambos ou fosse uma senha para ela se soltar. Ficaram ali um tempo maior que o normal e quando eles pararam, ela estava lívida. Mais leve que de costume e apenas levantou para se vestir.

“Preciso ir…”

“Ok. Acho que estamos quites por aqui.”

“Matematicamente eu ganhei né?”

“De prazer total estamos bem…”

“Isso eu tenho certeza…”

Quando ela já estava pronta, ainda matutava as palavras. Ele ainda se vestia na cama.

“Você usou as palavras que eu jamais pensaria, mas penso exatamente como isso. Acho que nunca consegui encontrar as palavras certas… E por isso, talvez, você tenha achado que eu estava tensa…”

“Nunca achei, mas não me importava afinal. Suas ações eram minhas respostas e elas eram bem claras. E sempre foi assim…”

“Sim, obrigada mais uma vez. Estou indo agora…”

“OK… Um beijo. Vai com cuidado”

“Nos vemos nas curvas da vida…”

“Eu estarei ali…”

“E estará sorrindo, né? Esse lindo sorriso que sempre me paralisa…”

“That damn smile…”

“Engraçadinho… Boa noite”

E se foi… Ele ficou perguntando se as curvas da vida seriam na mesma direção. Mas não adiantaria nada planejar. Eles nunca foram de planejamento. Simplesmente aconteceram quando tinham que acontecer. Sem culpas ou remorsos.

Ela nem avisou quando chegou em casa e ele nem avisou quando foi embora. Eles eram assim…