A carta estava em sua porta quando ele a abriu logo pela manhã. Não havia remetente, mas ele sabia de quem era…

Oi! Você sabe quem é que está escrevendo. Essa sua esperteza foi sempre o que mais me encantou em você. Desde quando você começou a falar comigo, eu percebi o quanto você tinha uma facilidade para adivinhar as coisas mais bem escondidas ou até como era fácil encontrar as soluções nas mais nebulosas situações. E ah! Estou me perdendo logo no início…

Escrevo isso aqui porque quero me abrir depois do que aconteceu na última semana. Tenho pensado nisso diversas vezes no meu dia. Tentando enxergar por diferentes ângulos e tirar qualquer julgamento da parte que mais me machucou. É difícil, eu admito, mas eu preciso tentar e entender o que se passou de uma forma ou de outra.

Desde o dia que a gente se conheceu, eu sabia que isso tudo era temporário e teria um fim. Eu suspeitava que o fim chegaria sem nenhum aviso – e tiveram situações que eu imaginei ele chegando, mas não assim. Não agora do nada. E por mais que eu soubesse como lidar com essas situações corriqueiras da vida, eu não sei como lidar contigo. A verdade é que tudo que eu pensei que aprendi e dominei na minha vida, com meus relacionamentos passados e todas as frustrações que passei (e você sabe que foram muitas), não são nada úteis aqui. Eu estou completamente arrasada e está sendo bem difícil superar toda essa situação criada.

Eu aprendi com você a admirar uma rotina, a olhar as situações de uma maneira mais tranquila e eficaz, eu aprendi a achar lugares que eu jamais pisaria. Eu aprendi a disfrutar situações que antes seriam completamente ignoradas da minha vida. E infelizmente, eu não sei se conseguirei manter tudo isso, porque isso é seu. Você me ensinou, mas me dói pensar ou viver a minha vida dessa maneira – porque eu aprendi tudo isso vivendo com você e realmente é surreal como me machuca.

Você sempre disse “a ignorância é uma benção” e agora me vejo desejando essa ignorância, para eu esquecer o quanto eu era feliz…

Sim, eu era feliz com você. Além de qualquer conotação física e sexual, eu era muito feliz com você. Eu acho que você tem um grande problema: transforma as mais medíocres situações em algo absurdamente prazeroso. E eu me acostumei, de novo. E machuca porque isso não existe mais.

Sinto falta dessa simplicidade toda. Sinto falta do sabor da sua comida, do seu sorriso, do seu beijo, da forma que me sentia segura ao seu lado e de que tinha certeza que chegaria em casa sã e salva – mesmo quando você estivesse bêbado e completamente fora desse mundo. Eu não me importava, porque eu enxergava você se esforçando ao máximo para me levar em casa e seguir o seu caminho. Sinto saudade da sua ressaca, que no início eu detestava, mas depois me dava a oportunidade de cuidar de você um pouco – porque você sempre cuidou de mim.

Enfim! Eu estou escrevendo sem um roteiro e esse desabafo está completamente desconexo. Talvez ele retrate exatamente como me sinto: Desconexa da parte que me deu uma vida tão inesperada e se foi sem uma razão aparente para seguir o caminho que ele sempre me ensinou, mas que eu talvez sonhasse em percorrer com você.

Me perdoe por escrever tudo isso, mas eu precisava te explicar tudo o que acontece aqui dentro. Aqui que você veio, criou morada e se foi. Aqui que você derreteu meu coração e, da pior forma possível, o despedaçou de novo. Não! Eu não te odeio, mas eu sinto sua falta e nem quero você novamente. Eu jamais confiaria em você novamente. Eu jamais vou esquecer como você é bonito, mas eu não vou me apaixonar por você, simplesmente porque agora eu sei o quanto é nocivo em um longo prazo.

Eu não te desejo nada. Nem o bem, nem o mal. Porque quando eu te esquecer (e eu vou), você será apenas um desconhecido na rua e sonho com o dia que não vou mais te reconhecer.

Obrigado por tudo e Adeus!