Quando você começa a pesquisar sobre como se preparar para o Caminho, uma tonelada de informações diferentes começa a surgir na sua frente…

Desde as mais “conservadoras”, até as mais “aventureiras”, mas tudo isso demonstra que a preparação é uma coisa pessoal – quase que como sua impressão digital – cada um terá a sua, respeitando seus limites e controlando o ritmo de cada um. Claro que a preparação precisa ser em três vertentes: a física, a de equipamentos e a mental…

15 de cada 10 lugares que você lê sobre preparação falam a mesma coisa: O Caminho é 30% físico e 70% mental. Eu sempre respeitei essa informação, mas eu diria que é uma proporção como 40-60. Com o mental sempre sendo mais importante…

A parte mental vai fazer você entender que não é perigoso. A parte mental vai fazer você não acelerar o passo, porque você vai conseguir chegar com o ritmo normal. A parte mental vai fazer você sorrir quando se perder, porque no final das contas é o que acontece com todo mundo. A parte mental vai “encobrir” as dores do corpo, deixando espaço apenas para as dores preocupantes que você vai precisar parar e descansar. A parte mental vai fazer a sua verdadeira motivação vir à tona quando mais você precisar – como por exemplo, quando você estiver todo encharcado, faltando 10km para o seu albergue e a chuva não te deu trégua durante todo o dia. E mais importante que tudo, é a parte mental que fará você levantar da cama todos os dias para a próxima jornada – independentemente do clima, da temperatura e do cansaço.

Posso afirmar facilmente, que sem a parte mental você não vai conseguir completar 3 etapas. Simples assim…

Mas claro que o físico também é importante. Não é possível que você tendo uma vida de Netflix e Nutella, sem nenhuma atividade física na sua rotina, acorde um dia e decida ir para o Caminho, porque “mentalmente está preparado”. Não há parte mental ou motivação que aguentem os trancos das etapas. É necessário se preparar um pouco (ou muito), tanto com caminhadas frequentes e com condicionamento físico ativo. Não é apenas caminhar, mas também levar uma mochila nas costas, em diferentes tipos de terreno e com (muitas) subidas e (poucas) descidas. Outra coisa que acredito ajudar é caminhar mais ou menos no horário que você fará suas etapas. Como acordo cedo e vou para a academia às 6h da manhã, preparava minhas etapas para começar entre 5:30 – 6h, assim já estava acostumado com a escuridão do início e com o dia clareando na sequência. Uma mudança de hábito me fez começar a ir a pé para a academia – caminhava os 3.8km às 6h da manhã e depois ia para o trabalho a pé, totalizando normalmente 8km por dia. Qualquer outra atividade que pudesse ir caminhando, eu a fazia caminhando. E nos finais de semana fazia planos para caminhar o máximo possível.

O meu maior receio da parte física eram meus joelhos. Como falei antes, o meu joelho direito está praticamente destruído. Então tinha um medo real de não aguentar o Caminho. Para isso, foquei em cuidar o máximo possível deles e fazer um treino forte (sem pular os dias) de pernas. Pode parecer bizarro, mas tiveram várias semanas que não fazia peito ou braço, para fazer somente pernas. Além disso tudo, também tinha a natação que sempre ajuda tanto no condicionamento, quanto na ativação do corpo. E pode ter certeza que agradeci os treinos nos dias de Caminho…

Mas existe o ator principal dessa odisseia – o tênis. É como uma história de amor ou de terror dependendo de como você passará com ele. Independentemente de como for, a receita é simples: Compre um tênis de qualidade boa, ao menos 6 meses antes do Caminho. “Destrua” seu pé no início com ele, para saber onde e como as bolhas vão aparecer. Depois de “acostumado” com as bolhas e afins, use o tênis como se fosse parte do seu corpo – de ir para a academia, trabalho, festa do tio, balada e afins… Sério! Use como se não houvesse amanhã. Depois de 1 ou 2 meses usando sempre, relaxe e escolha ocasiões para utiliza-lo, afinal você não quer que eles fiquem velhos antes do Caminho…

Eu comprei os meus na Black Friday, destruí meus pés no primeiro final de semana (eu não consegui usar nenhum tênis nas 2 semanas seguintes), depois continuei usando e levei para o Brasil, onde caminhava com eles por 7 km ao dia – Com o suor e o calor, fiz novas bolhas (mais tranquilas, mas mesmo assim doloridas), e quando faltavam 3 meses para o Caminho, resolvi dar um descanso e apenas os usava nos finais de semana ou em longas caminhadas. O resultado? Nenhuma bolha durante os 14 dias de caminhada. Nenhuma. Zero. Não tive torção grave de tornozelo (é um tênis com cano médio, não uma bota) e nenhuma outra lesão. Quando falava isso com as pessoas, sempre respondia “Tivemos nossos desentendimentos no início, mas hoje somos os melhores amigos um do outro…” e não é mentira.

No resumo mais básico da história, a preparação se resume em uma “simples tríade” composta pelos três pontos descritos: A parte mental precisa ser forte o suficiente para te fazer confiar em teus passos, um corpo ativo que aguente o tranco e as peripécias do Caminho em todos seus efeitos e um bom amigo tênis cuidando e protegendo seus pés (e corpo como um todo) para que você apenas foque no lado bom do Caminho – passo a passo para chegar no seu destino da melhor maneira possível.

Feito a preparação, é hora de fechar os últimos preparativos e domar a ansiedade. Por mais que a sua preparação seja longa, cedo ou tarde, a hora de arrumar as malas e partir chegará…