Depois dos 60 anos, suas noites ficavam cada vez mais curtas, seu sono cada vez mais leve e sentia os suspiros de vida se esgueirando a cada nova manhã…
Ele sempre acordava antes do sol raiar. Não tinha alarme ou relógio no seu quarto, porque simplesmente não precisava de outro objeto ditando um ritmo que ele almejava ignorar. Na verdade, ele não precisava mais saber o dia, as horas ou quanto tempo faltava para algo especial… Simplesmente, porque não teria nada especial. Era apenas um dia a mais que ele despertava e seguiria a sua rotina sem nenhuma outra vontade ou razão.
Ele sempre acordava antes do sol raiar. Se levantava e ia tomar seu banho. Tomava banho no escuro – uma das manias que ele criou enquanto era jovem e a mantinha desde então. Naquela época, a escuridão do banho o relaxava e parecia colocar um ponto final no dia, como se fosse também lavar a alma junto. A ducha era sempre fria, mesmo se o inverno estivesse a plenos pulmões. Antes, se lembrava vagamente, a água fria causava algum choque e o despertava de imediato. Agora, ele sentia a água fria, ainda tinha a sensação de frio, mas não o incomodava. Tinha aprendido a suportar aquele momento e até gostava da sensação em despertar logo depois do contato da água. “Faz bem para a pele e para a alma”, sorria ele dessa ironia idiota que sempre dizia quando era mais jovem.
Ele sempre acordava antes do sol raiar. Se arrumava e ia para a praça do bairro acima. Geralmente ela estava vazia e ele sempre se sentava no mesmo banco. Alguns dias, ele não estava sozinho, alguns jovens ainda bebiam, flertavam e terminavam suas histórias iniciadas poucas horas antes. Ele levava um livro que folheava ao acaso, sem uma ordem definitiva, apenas para parecer normal e tentar ser parte de uma paisagem qualquer. Ouvia as histórias, ouvia o dia nascer a sua volta e aquela parte da cidade, que ainda era seu lar, ganhar vida e movimento, quase o levando junto.
Ele sempre acordava antes do sol raiar. Nos dias de chuva, ele saltava sua rotina. Era como se fosse seu fim-de-semana ou férias. Se arrumava na sua varanda, limpava a cadeira, preparava seu café e ficava ali vendo a cidade amanhecer preguiçosa e com certo ar de rabugenta. Sempre criava alguma piada de alguma cena que via acontecer na sua rua e suspirava de algo inédito que acontecesse. Quando já era alguma hora, porque nunca usava relógio, ele se dava o direito de tomar uma dose de conhaque. Talvez seu único amigo resistente àqueles momentos.
Ele sempre acordava antes do sol raiar. Gostava daquele tempo entre a escuridão e a claridade, porque também ajudava sua mente a recordar. Quando o sol estava para nascer, ele se recordava dos amigos que já não estavam por ali. Dos momentos quando tinha vida de verdade, das viagens realizadas, dos países que cruzou e dos sabores que experimentou. Se recordava da intensidade. Se recordava da adrenalina. Se recordava dos sentimentos. Se fossem outros tempos, ele se emocionaria e choraria depois de tudo, mas ele já estava cansado demais e não tinha mais porquê chorar.
Ele sempre acordava antes do sol raiar e gritava. Gritava ter almejado tanto e não conquistado nada. Gritava por ter planejado, mas não colocado nada em ação. Gritava pelos rumos tomados e gritava ainda mais por perceber que não o levaram para lugar algum. Gritava para tentar retroceder e tentar tudo de novo de forma diferente. Gritava até sem saber a razão, porque simplesmente contava os minutos para parar de gritar. Para parar de viver. Para parar de ser. Para parar de acordar antes do sol raiar…
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