Se perguntarem a minha grande lembrança do Caminho, minha resposta será “Tamel”. Uma vila minúscula de Portugal (menos de 3000 habitantes) que é uma das paradas “tradicionais” do Caminho Português…

Ali, além do Albergue de Peregrinos espetacular, foi o palco onde fiz as primeiras amizades do Caminho. Não foi o único local, mas foi o primeiro e muito especial…

Meu Caminho foi feito 70% sozinho. Na verdade, até Tamel (minha 7ª etapa) eu caminhei todos os dias sozinho. Não era algo que eu me queixasse. Até por conta do meu joelho, fazer as etapas sozinho era o meu “normal”, porque não queria forçar o ritmo seguindo outras pessoas, como também não queria atrasar as pessoas se caso eu precisasse parar ou se eu sentisse algum desconforto. Comentei no capítulo anterior que conversei com o John por quase 10 minutos e havíamos comentado de nos encontrarmos em Tamel. Lembro que aquela etapa foi uma das primeiras que o sol não deu trégua durante todo o dia, chegando na temperatura de 28 graus – o que por si só já é uma temperatura alta para caminhada, adicione que tinha mais uma mochila/equipamentos com quase 10 quilos nas costas. O Albergue de Peregrinos é na parte alta da cidade, para chegar até lá, você tem praticamente 2 quilômetros de uma subida INSANA. Junte o calor, com o fato de você estar caminhando há 7 horas e já estar no final das suas energias, quando você finalmente chega ao Albergue é como uma miragem se tornando realidade. A cara de todos que chegavam era igual: um alívio, largando as malas no chão e sentando em qualquer lugar que exista para descansar e retomar o fôlego.

Se você olhar o mapa, verá que na frente do Albergue tem apenas um bar. Nada mais além disso. É um local “inóspito” de comércio e tem apenas aquele bar ali na frente. Com o calor, o cansaço e as energias minguando do corpo, eu passei as duas últimas horas da etapa imaginando uma Coca-Cola bem gelada, uma cerveja e uma sombra para poder relaxar. Naquele momento eu não ligava para comida, apenas para matar a sede. Ao chegar no Albergue, a realidade me deu um soco na cara: o bar estava fechado para obras! Esse foi o fato que todos os peregrinos, homens e mulheres, riram da irônica realidade e começamos a conversar para passar o tempo (O Albergue só abria às 14h e chegamos por volta das 13h).

Aos poucos, cada um foi escolhendo uma sombra e relaxando o corpo da maneira que conseguia. Eu estava deitado em um banco quando John chegou e me cumprimentou. Conversamos sobre a etapa, lamentamos do bar, mas ele sentenciou “Aí dentro certeza que terão cervejas. Eu estou te devendo!”. Rimos e contamos um pouco mais dos motivos de estarmos ali. Logo, chegaram dois alemães, Mark e seu tio (que é a única pessoa que não lembro o nome), e a falta de cerveja foi o combustível para conversarmos pelos últimos minutos antes de abrir o Albergue. Logo quando entramos, Mark foi até o responsável do Albergue e fez a pergunta que todos queriam: “Tem cerveja?” e o rapaz riu e apontou a geladeira cheia de garrafas, para nossa felicidade.

Enquanto esperava na fila, chegou a Rubi. Uma mexicana que havia conhecido no dia anterior e que também caminhava sozinha meio que sem plano definido para cada etapa. Ela ia caminhando até encontrar um local para parar. Comentei a minha ideia das próximas etapas e ela achou interessante, porém tinha receio de caminhar os quase 30 km do trecho – afinal ela não havia se preparado muito para o Caminho. Na noite anterior, ela disse que talvez parasse ali, mas não prometia. Quando a vi, fiquei feliz que ela havia conseguido superar os tantos quilômetros, o calor e a subida.

Terminado o check-in e depois de um merecido banho, nos juntamos no salão do Albergue e começamos a conversar, brindar e contar um pouco de nossas histórias. Ali, se embaralharam memórias, comentários, histórias, planos, motivos e um pouco de tudo. Éramos cerca de 10 desconhecidos, mas que a forma que rimos, criamos apelidos, fazíamos piada e deixávamos leve o ambiente, parecia que éramos amigos de longa data. Eu era o único que falava português ali e o Carlos, responsável pelo Albergue, me perguntou “Vocês estão fazendo o Caminho juntos?” e eu respondi que era a primeira vez que encontrava aquelas pessoas. Ele se assustou e falou: “Olhando daqui e ouvindo as conversas, parece que vocês se conhecem de dias… Que coisa!” – era o mesmo sentimento que eu tinha. De alguma maneira, aquele encontro foi o combustível que precisávamos para aprender ainda mais da nossa jornada…

As horas foram passando, compartilhamos pizzas no jardim do Albergue, mais cervejas e as conversas foram ficando mais significativas. Ali, cada um de sua forma, confessou seus pontos pessoais, suas aflições e suas angústias. Não era algo forçado. A pessoa queria e falava para desabafar seus “medos”. Eu comentei outros pontos de agradecimento. John detalhou os pontos que fizeram ele perder sua fé. Rubi comentou suas batalhas… Um a um nos confessamos juntos e compreendemos que nos completávamos de uma maneira caoticamente perfeita. As palavras de conforto recebidas aquele dia, me fizeram realmente bem.

Saltando alguns dias, na penúltima etapa do meu Caminho, o mesmo sentimento voltou. Estava em “Portela/Barro” e tive a oportunidade de ficar no Albergue mais “albergue” da minha jornada. Era um local confortável, limpo, que tinha de tudo, mas de maneira simples e caridosa. Era no meio do nada também, sem bares ou comércio perto. Assim, o albergue fazia um jantar para todos os peregrinos. Era algo coletivo, onde todos tínhamos que compartilhar a mesa e ter aquele momento “família”. No local não haviam preços, tudo funcionava com base de donativos e você decidia quanto iria pagar. Ali conheci o Alessandro, um italiano que tinha morado no Brasil e falava português perfeitamente. Ele era o estilo de peregrino raiz: não era seu primeiro caminho e até tinha feito uma vez calçando apenas sandálias, como os primitivos, e seguia uma visão bem “espiritual” do Caminho. Também conheci a Kristyna. Uma tcheca que estava em seu segundo caminho e foi uma das pessoas mais especiais que tive o prazer de conhecer. Tivemos várias conversas engraçadas, mas que mostraram que nosso senso de humor e sobre o mundo eram muito parecidos, o que tornou a conexão muito forte e tranquilamente, posso falar que a Kristyna foi a minha grande amizade do Caminho…

Obviamente não vou expor os detalhes das conversas, os motivos de cada um e também das confissões feitas naquelas noites. O mais importante de tudo são as lembranças das pessoas, das risadas e do conforto proporcionado naqueles dias e momentos que compartilhamos juntos.

Escrevi no diário de viagem que nunca me despedi deles, mesmo sabendo que era possivelmente a última vez que veria a maioria (ou todos), simplesmente porque compreendi que se fosse necessário, haveria uma segunda, uma terceira, uma quarta ou uma centésima despedida. Mas, o principal ponto dessa vida criada em poucos minutos, se resume nas palavras do Mark, na nossa última cerveja da noite em Tamel: “É engraçado como nos demos bem… Parecemos uma reunião familiar, mas sem as brigas e invejas. É tão maravilhoso ver o quanto nos sentimos bem quando ninguém aqui estava com o ego ligado. É tão lindo que parece irreal…

E nesses momentos o Caminho te presenteia, mesmo você achando que já teve demais dele…