De happy hour, agora era algo semanal. Do lado dele, a traição havia sido apenas um lampejo e a tentativa do retorno ao normal…

Ele havia cruzado a linha de antes e se aventurava na traição. A Renata, esse era o nome da jovem – porque ela tinha 20 e poucos, idade que ele nunca se lembrava, mas como 20 anos a menos que ele, era o protótipo das meninas que ele gostava. Ela sabia que ele era “casado” e que muito provavelmente seria algo esporádico e se comportaria como tal. Combinaram rapidamente e foram à um bar do outro lado da cidade numa quarta-feira. Ele começou a ficar incomodado com a situação ali nos primeiros drinques. A conversa claramente não fluía e a menina apenas queria ficar bêbada o suficiente com os drinques mais caros do cardápio. “Você é diretor né amorzinho, logo deve ter um cartão ilimitado… Como minha sede de tesão por você” – era esse o tipo de conversa que eles estavam tendo. Finalmente foram para o motel e o sexo foi o que ele esperava. Absurdamente interessante, mas que quando estava se vestindo já tinha vontade de mandar a Renata para a puta que pariu… Ao deixa-la em casa, bloqueou os contatos e refez a mesma promessa de 1 ano e meio antes. Jurando que agora seria a última…

Ela com Murilo foi o oposto. Ela ficou molhada de tesão logo que eles se encontraram na saída da academia para ir ao bar, naquela primeira terça-feira. Foram no carro dela, porque ela se sentia mais segura assim do que chegar ao local sozinha. Ele a beijou de forma quente, com a língua dele conhecendo cada parte da sua boca e suas mãos passeando pelos seus seios de forma intensa. Ela teve o lampejo de pular o bar, mas acabaram indo mesmo assim, mas cerca de quarenta minutos depois já foram para o motel. Todas as suas expectativas foram destruídas, porque ela não imaginava que seria tão bom e intenso. Não se lembrava da última vez que havia gozado mais de 3 vezes na mesma noite e queria cada vez mais. Ela se surpreendeu como o corpo do Murilo se encaixava no seu e cada vez que pensava ser uma posição mais difícil, ele transformava em algo prazeroso. Mesmo o fato dele não gostar de chupá-la, não era nenhum problema e ela sentia cada vez mais tesão.

Fácil descobrir que eles marcaram mais na próxima semana, e na próxima, na outra e assim por diante. Algumas semanas conseguiram se ver duas vezes e quase sempre com a mesma “rotina” – um bar para comerem e tomarem algo simples, para o motel onde eles se satisfariam da melhor maneira.

Essa rotina começou a ser um pouco estranha para seu noivo. Ele começou a desconfiar das reuniões de amigas que ela dizia fazer. Antes as reuniões eram mais espaçadas e sempre haviam fotos de alguma delas nas redes sociais. As saídas aumentaram e as fotos diminuíram. Ele tentava conversar sobre isso, mas recebia respostas vagas e inclusive ela se alterou com o questionamento e começou uma briga sem fundamento algum sobre o momento. Ele se calou e o relacionamento que antes era monótono, ganhou contornos de tensão pela primeira vez. As saídas continuaram e os diálogos sumiram. O sexo entre os dois, que já estava espaçado, desapareceu por completo. Ele tentava de tudo, mas parecia existir uma barreira entre eles.

Em uma terça-feira, ele estava em um happy hour com o pessoal do trabalho no “bairro da moda” e em um bar que ele nunca havia estado. Por volta das 20h, enquanto estava conversando com os colegas de trabalho no “fumódromo” do bar, viu o carro da esposa parar bem na porta do bar e ela sair sorridente com um cara que ele nunca havia visto na vida. Não foi uma surpresa grande quando o viu abraçando e beijando sua noiva com aparente desejo.

Os colegas do trabalho pareciam não ter reparado na situação, apesar de alguns conhecerem a sua noiva, e ele apenas terminou o assunto rapidamente e foi ao banheiro. A tensão o dominava e ele chorou pela primeira vez em anos ali – sozinho, completamente perdido e sem saber o que fazer.

Dez minutos se passaram e ele decidiu ir embora. Deu uma desculpa ao pessoal do trabalho e pediu ao seu colega mais próximo que pagasse para ele e que ele acertaria na manhã seguinte. Muitos não entenderam a saída repentina, mas ele ignorou as explicações e se foi. Buscou a mesa da noiva e se deparou com eles em um beijo quente, que ele teve ânsia e saudade ao mesmo tempo. Decidiu ir até a mesa. Ela não o via chegar, pois estava de costas. O cara percebeu que ele ia em sua direção e aparentemente ficou mais tenso.

“Será que ele sabe?” “Será que ele sabe quem sou eu?” pensava ele…

“Oi! Que bom que você está se divertindo. A gente conversa depois.” Foi o que ele conseguiu falar. Se virou e foi embora.

Murilo entendeu a situação e se afastou dela por um momento. Ela ficou em choque, sem saber o que fazer ou se era verdade o que havia acabado de acontecer. A tensão na mesa dissolveu qualquer tesão e alegria que eles estavam sentindo no momento. Ela pediu a conta e pagou. Tudo acontecia de maneira rápida e meio surrealmente automática. Teve que levar Murilo para a academia, mas não trocaram uma palavra no caminho. Murilo tentou consolar a situação, mas ela apenas agradeceu e se manteve em silêncio.

No caminho para casa, mais certa de tudo o que iria acontecer, começou a preparar suas justificativas e verdades. Não havia outra saída. Ela estava errada, mas ele também tinha parcela de culpa, isso ela iria mostrar e se prepararia para a longa discussão que iria se suceder daquele episódio.

Era difícil ter noção do tempo. Ele chegou em casa e preparou uma mala simples para o que seria uma temporada de emergência. No caminho havia ligado para seu amigo Bruno e explicou toda a situação. Bruno era seu melhor amigo e se sentia tranquilo para contar tudo de forma bem completa e sem rodeios. Inclusive Bruno sabia das traições e de tudo o que rolava com ele e sua noiva. Estava terminando a mala quando ela chegou em casa.

Apesar de toda a preparação, ela não esperava que ele fosse sair de casa. Quando viu a mala e as coisas prontas, ela se sentiu um pouco abalada e o medo percorreu sua espinha.

“Calma André! O que é isso?”

“O que parece Regina? Quer um desenho também?”
“Você não está entendendo…”

“NÃO? Sério? Quem era aquele? Uma amiga? Parecia meio homem… E eu não sabia que você beijava na boca suas amigas. Poxa, minha noiva é bissexual agora e eu não sabia! Meu deus! Quantas coisas eu perdi?”

“Para de ser ridículo Dé…”

“Sem problemas.”

“O que você quer com isso tudo?”

“…”

“Dá para pelo menos entender o que aconteceu?”

“Você estava me traindo. Ou melhor, está me traindo. Foi isso que aconteceu… E há quanto tempo isso acontece? Devo me preocupar com alguma doença?? Ah não! Faz mais de 2 meses que a gente não transa. Só se rolou isso outras vezes… Tenho que me preocupar?”

“Tá me chamando de vagabunda?”

“Nunca! Apenas perguntei porque vai que…”

“Para de ser ridículo. Eu não sou vagabunda. Ele é recente…”

“E foi o único?”

Ela não se conteve e deu um tapa na cara do noivo. Ele não revidou e apenas a olhou mais fixo. Ela tremia. Ele também. Alguns segundos se passaram em completo silêncio, até que ela retomou a conversa…

“Você pode ao menos saber o que eu sentia?”

“Eu te traí também Regina. 3 vezes nos últimos nove anos. 3 vezes. 3 transas apenas.”

“O QUÊ? COMO É QUE É???? Seu filho da puta… E agora que você me conta?”

“Eu mereço esse tapa. Eu mereço isso tudo. Talvez seja a minha punição. E eu tô indo embora… Eu venho pegar o resto das coisas quando eu tiver um outro lugar certo.”

“Você me deve muito mais do que isso…”

“Devo talvez. Você também. Mas sério, acabamos aqui. Desculpa por tudo… A gente se fala para resolver qualquer outro problema.”

Ele fechou as malas e saiu. Ela ficou jogada na cama desarrumada chorando e repassando tudo o que havia acontecido nas últimas horas. Tudo havia sido revelado. Tudo havia acabado. Havia muitas outras questões que surgiram, mas que ficaram borradas pela verdade nua e crua que ambos viviam no momento. Era tudo muito novo e tudo muito cruel.