Era a primeira vez que ouvia aquele telefone tocar. Mesmo antes de atender, eu já sabia quem estava ligando…
Tentava disfarçar a marca no pescoço com uma maquiagem barata. Sorria sozinha, lembrando das loucuras de noites de verão das quais jamais se orgulharia…
Ela havia ganhado a vida anterior em apostas e vitórias gordas. Ele sabia que não tinha sido a sua primeira escolha…
Queria outro lugar. Precisava de outro lugar. Um lugar novo, com tudo novo, reiniciando do zero — pela milésima vez — já que todos os seus planos falharam, como sempre…
Essa foi uma das últimas conversas que tivemos. Éramos apenas esses novos adultos que pensavam demais e achavam que sabiam de tudo…
Ele sempre sonhava, mas nunca se lembrava dos seus sonhos. Acordava com uma pontada na cabeça e um apagão na memória tão corriqueiro que já era seu despertador natural…
Talvez tudo isso que chamamos de vida seja um jogo, sem regras claras ou finais gloriosos e de sucesso…
A cidade acorda com hálito de fritura fria e silêncio suado. O sol espreita os cantos como quem não quer ver, mas vê — o papel engordurado de um pecado carnal que antes ousávamos esconder mais…
A vida é um jogo, onde somos peças fundamentadas no tão famoso ganha x perde…