Como dizem tantas músicas, as vezes apenas devemos arrumar as malas e partir para o nosso destino, seja como e onde ele for…

Acho desnecessário explicar o que levar na mala, sendo que eu levei muitas coisas que não usei – umas por idiotice, outras por medo de lesões mais fortes e até por não confiar em muitas coisas, levei dezenas de remédios e curativos para o que você imaginar… Então definitivamente não sou a melhor pessoa para dar esses conselhos.

Mas acho que quando chega o momento de você arrumar tudo, comprar as passagens, fazer o check-in e partir para o Caminho, é sempre um ponto de reflexão forte. O medo começa aprisionar os seus pensamentos e seu raciocínio normal. De repente, aquela confiança toda que tudo estava nos conformes e você estava 100% pronto, desaparece no próximo segundo. A ansiedade cria mil pensamentos na sua cabeça, as insônias são mais frequentes, você começa a rever os planos, etapas e começa a pensar se você está realmente pronto para toda a jornada do Caminho…

Eu revisava os planos diariamente e olhava as reservas de novo e de novo… Relia as informações e tentava mentalizar os quilômetros que teria pela frente. Tentava ponderar opções e fazia os famosos planos B e C – para tentar cobrir toda e qualquer situação. Por conta disso também, eu criei uma “pré férias” antes do Caminho, apenas por se acaso precisasse comprar alguma coisa urgente ou remanejar algum plano, eu teria tempo…

Sim, tudo foi em vão. Mas até então eu não sabia.

Decidi pelo Caminho Português. O “oficial” começa na Sé de Lisboa, percorrendo 650km até Santiago de Compostela. Porém, decidi fazer algo menor e também mais pessoal. Meu Caminho partiria de Coimbra, passando por Porto e fazendo o Caminho Central, até Santiago de Compostela. Resolvi começar em Coimbra por alguns motivos: O primeiro é que foi a primeira cidade que morei na Europa, lá em 2017. Foi ali que comecei essa “jornada na Zuropa”. Segundo motivo, foi ali onde nasceu minha avó materna, dona Maria, a responsável por eu ter conseguido minha cidadania portuguesa. Como a motivação era agradecer tudo o que tive em vida, nada mais justo que iniciar onde tudo literalmente começou…

Por já conhecer um pouco da cidade, tive tempo para um passeio com olhar nostálgico sobre lugares, ruas e recordações que vinham na mente. Foi engraçado, e até certo ponto angustiante, ver o quanto aquele “velho” Matheus enxergava e como vivia a vida naquela “caótica” cidade que nunca se sentiu parte. Eram 7 anos apenas nos separando, mas pareciam outra vida completamente diferente. Na última tarde na cidade, voltei para a pousada e fiquei imaginando se aquele misto de sentimento e de “desprendimento” já faziam parte do Caminho ou ainda não. Justo eu, que sempre fui contra a dizer “Adeus”, estava a ponto de dizer isso para Coimbra…

Na última noite choveu torrencialmente. Comecei a separar a roupa para o dia seguinte, e a previsão era de chuva durante todo o dia. Terminei o vinho que tinha comprado na noite anterior, fechei as coisas pela última vez e já deixei separado uma velha mochila que deixaria para trás… Como de costume, acordei 1 hora antes do alarme. Tomei um banho, fiz um último “check” de todas as coisas e saí do quarto às 5h30 da manhã. Não chovia, mas tudo ainda estava molhado da noite anterior. Com chuva ou sol, era necessário começar. E assim foi que comecei o primeiro passo do Caminho…