Ela rolou o corpo e saltou da cama. Ainda nua, foi para a sala, pegou o seu cigarro, abriu a janela do quarto sem perguntar e ficou me olhando…

Eu me ajeitei na cama e tentava decifrar o que passava na sua mente. Ela fumava tranquilamente, mas não tirava os olhos de mim. Ela tinha um poder realmente grande sobre mim, pois sabia que eu a estava admirando. Sempre fui fascinado pelo seu corpo e, nas muitas vezes que dormimos juntos, eu me mantinha acordado apenas para admirá-la dormir, tentando encontrar alguma coisa que me enjoasse, como sempre acontecia. Foram anos loucos e confusos, mas com ela eu nunca tinha encontrado nada.

Ela sorriu e finalmente falou algo.

“Esse é o nosso problema… Melhor, o seu problema né?”

“Meu problema você sabe bem qual é…”

“O problema é que você é um lindo gostoso e toda vez que eu transo contigo eu me sinto a melhor pessoa do mundo.”

“Uau…”

“Viu? Você me irrita, porque sabe que é verdade…”

“Não acho que seja o lindo gostoso, mas fico feliz de te fazer feliz.”

“Você sempre me fez feliz…”

“Nem sempre né gata?”

“Sempre. Eu fugi muito de você, porque sabia que ia sofrer…”

“hmm…”

“E você sabe que é verdade. Eu resisti o máximo possível, porque sentia desde aquela tarde que fugimos do trabalho e ficamos na rua atrás de casa.”

“Culpando as caipirinhas de uma sexta-feira? Que feio pô…”

“E o teu perfume…”

“Meu sorriso não? Agora fiquei ofendido!”

“Af… Sem comentários”

“E afinal, valeu a pena?”

“Difícil saber…”

“Por quê?”

“Porque foi mais do que eu imaginei. Você lembra que fiquei 2 semanas sem falar contigo depois, né?”

“Quase 3… E eu nem imaginava o que havia acontecido.”

“Você aconteceu, Má. Você, com esse beijo surreal, fez um curto-circuito no meu corpo que eu tive que tentar fugir…”

“Uau…”

“Chega de uau… Você sabe muito bem disso. Você mesmo disse que havia sentido algo diferente aquele dia.”

“E eu queria continuar, você fez essa cara de satisfeita, jogou duas ou três promessas vagas, com desculpas fracas e depois nem me responder uma mensagem, você respondia…”

“É, bonito. Eu pirei…”

“E aqui estamos…”

“E você vai embora, mais uma vez.”

“Sim.”

“E eu vou ficar aqui. Entende agora?”

“Mas quem quis esse espaço todo sempre foi você. Foi sempre assim… Se eu chegasse muito perto, você surtava e sumia. Passei meses tendo que pesar mil vezes as palavras e planos contigo.”

“E assim, eu te fiz desencanar de mim.”

“Sim”

“E eu percebi tarde demais… E aí tentei recuperar esse tempo.”

“Mas já havia criado toda uma loucura que eu nem imagino passar de novo por ninguém.”

“Eu não sou tão louca quanto tua ex.”

“Diferente, mas loucura é loucura”

“Tem como me desculpar dessa?”

“Se não tivesse desculpado, você não estaria aqui né?”

“Uau… Que especial”

“Voltamos com o uau então?”

“Dessa vez pode.”

“E sim, tenha certeza que se não houvesse desculpa você não estaria aqui”


Ela voltou para a cama, ainda nua. Ainda com vontade. Me beijou como suplicando por mais e logo estávamos transando novamente. Era envolvente, não louco ou afobado, mas os dois curtindo aquele momento e cada um tentando guardar na memória a melhor parte, o melhor ângulo e a melhor forma de como os nossos corpos se conectavam de maneira quase uniforme.

No final da segunda, ela se aninhou em meu peito e eu podia sentir seu coração acelerado, seu corpo relaxado e se recuperando calmamente, sem pressa. Sem medo ou urgência. Ali, naquele momento, a sensação era que se o mundo explodisse, tudo ficaria bem.

Era mais ou menos essa imagem que eu guardaria. Ela aninhada, com o meu braço ao seu redor e com a mão quase em seu quadril. O cheiro do seu shampoo doce com algo que eu jamais conseguia adivinhar e ela desenhando sem nenhuma razão no meu peito…

“Você não imagina quantas vezes eu sonhei com isso…”

“Com o que exatamente?”

“Contigo me fazendo gozar horrores, ver sua cara de prazer gozando e depois poder ficar aqui abraçada e não sabendo o que é mais importante na vida…”

“Saúde e paz, não?”

“Você que é atlético. Eu sou sedentária. Mas a paz eu encontro…”

“Ainda bem que você aceitou meu convite. Eu senti muito a sua falta.”

“Somos dois loucos né?”
“Um pouco…”

“Sei que amanhã você não estará mais aqui. Vou me machucar horrores. Vou me culpar por ter vindo, vou me culpar mais ainda ter subido aqui. Vou prometer que da próxima vez eu não vou nem te beijar. Mas daí eu vou descumprir qualquer promessa. Porque uma parte de mim sabe o quanto me faz bem e esse ciclo todo vai recomeçar…”

“A gente deveria ter se aberto antes.”

“Eu sei. Mas tudo bem, afinal de contas, se tivesse acontecido algo diferente, provavelmente a gente não estaria aqui. E eu sei que a gente não ficaria junto mesmo.”

“Seria complicado, mas não dá para prever nada…”

“Isso sim, a gente não ficaria junto. A gente se mataria…”

“Seria complicado hahahaha”


E ela me beijou uma última vez. Eu levantei para ir ao banheiro e quando voltei, ela já estava com a roupa quase pronta.

“Não quer dormir…” – ela me interrompeu com os dedos na minha boca. Ela me abraçou com um olhar profundo e totalmente confuso. Me beijou novamente, agora sim com uma súplica profunda. Me agradeceu. Disse que me adorava muito e me desejou boa noite e boa sorte.

Ela sorriu uma última vez e eu esqueci de tudo naquele momento e voltei para dormir sozinho mais uma vez…