A vida guarda suas ironias para os melhores momentos e se fosse apostar em uma menina que jamais falaria comigo de novo, seria ela…

Literalmente a encontrei no metrô. Mesmo que ela quisesse virar a cara, talvez não conseguisse. Quando a porta se abriu e eu entrei no vagão, seus olhos fincaram nos meus e eu não tive outra reação a não ser a surpresa e dizer “Olá” com meu sorriso de incredulidade. Ela sorriu, demonstrando um desconforto latente, mas me respondeu e ficamos naquela conversa estranha de dois conhecidos que jamais deveriam se encontrar, mesmo estando na mesma cidade e mesmo sendo quase vizinhos um do outro.

A vida seguiu normal quando ela decidiu se afastar de mim. A vida seguiu sem encontros inesperados por um ano e quatro meses. Os locais que ela gostava de ir, eu não iria por natureza. Os meus lugares ela jamais conheceria ou frequentaria. Não tínhamos gostos musicais parecidos e muito menos o gosto esportista era o mesmo. Sim, a gente saiu por dois meses e meio praticamente. Nada além disso. E ela sumiu normalmente e eu segui a vida… Pode parecer pouco, mas os 16 meses seguintes passaram voando e eu jurava que nunca mais a encontraria de novo.

A estação dela ficava uma antes da minha casa.

“Se você tomar uma cerveja comigo, eu desço aqui de boas…”

“Ok. Uma cerveja.”

“1 cerveja. Hoje é quarta-feira…”

“E você não bebe durante a semana.”

“Exatamente…”

Descemos e escolhi o primeiro bar de esquina que tinha. Era um final de inverno que parecia interminável e escolhemos uma mesa dentro por conta do aquecimento. Nunca tinha entrado naquele bar, mas era uma mistura de café, com lanchonete e uma aura que a comida dali era intragável e malfeita. Pedi duas cervejas e disse que não iríamos comer. A garçonete me olhou com uma cara neutra e saiu com o cardápio sem demonstrar nenhuma surpresa ou indignação.

Ela rompeu o gelo primeiro.

“Não sei se estou confortável…”

“Ué. Por quê?”

“Feeling…”

“Fica tranquila. Não tenho nada contra você ou nada. Só que não poderia deixar passar essa surpresa.”

“Faz muito tempo, não?”

“Deixa eu ver… 1 ano e meio? 1 ano e quatro que a gente se viu…”

“Hmmm…”

“E eu poderia apostar que a gente nunca mais se veria…”

“A vida seguiu, né?”

“Claro. Sempre…”

A garçonete voltou com as cervejas. Pousou os copos na mesa e saiu sem nenhuma palavra.

“Um brinde à ironia da vida…”

“Saúde.” E bebemos o primeiro gole olhando no olho de cada um. E eu sabia que era a deixa para a parte desconfortável…

“Para os autos da minha vida… Por que você sumiu? O que eu fiz de errado?”

“Nada ué… A gente simplesmente parou de sair.”

“Não. Você sumiu.”

“Você saiu de férias…”

“Foram 3 dias…”

“Eu fiquei doente também. Fui parar até no hospital”

“Você me falou isso depois, mas poderia ter te ajudado.”

“Não quis te incomodar…”

“Nada a ver né. Vai… Continua.”

“Nada. Simplesmente… Nada.” ela ficou olhando para o copo pensando no que falar em seguida.

“Posso esperar mais um pouco, sem problemas…”

“Eu não me sentia confortável do jeito que a gente ficou…”

“Como assim?”

“Eu errei. Eu tinha o problema do meu ex-marido e não queria ser vista com alguém mais naquele momento. Bobeira. Mas era isso que eu pensava. E aí eu criei essa loucura na minha cabeça e só queria te ver em casa… No início era seguro, mas depois me machucava. Era tão bom te ter ali, mas eu queria te mostrar para as minhas amigas. Queria passar um dia na praia contigo ou até fazer essas escapadas por aqui por perto. E não tinha como. Na verdade eu pensava melhor e bloqueava isso da minha cabeça. Era minha cabeça, mas eu juro que pensava que era você que não queria ser visto comigo. Eu tomei coragem e te chamei duas vezes para andar de bicicleta e fazer um passeio na praia e você inventou desculpas…”

“O dia do passeio de bicicleta, você me avisou 10 minutos antes de sair da tua casa e eu tava com outros amigos. O da praia, eu tava doente…”

“Sim, mas isso na minha cabeça soou como que você estava me evitando. Sendo que depois eu fui ver, que era eu a causadora disso… A gente é praticamente vizinho e eu nem sei onde você mora…”

“Eu te chamei algumas vezes eu acho, você não quis ir…”

“Sim.”

“E aí você foi me evitando…”

“Também.”

“Tinha outro cara…”

“Também… Mas foi meio que depois e terminou antes. Foram duas vezes ou três. Nada de mais.”

“Entendi… E com ele também foi escondido?”

“Foi, mas aí era por você e pelo ex… Não ia dar certo.”

“Entendi. Triste não?”

“Foi uma loucura… Sei lá. Você tinha razão depois de me ignorar, eu faria o mesmo, mas foi isso…”

“Tranquilo. Eu só fiquei pensando umas três vezes no assunto do que eu tinha feito errado ou coisa do gênero. Não perdi o sono, mas é que foi meio inesperado.”

“Desculpa…”

“Sem problemas. Nenhuma razão para isso, de verdade…”

“Queria que tivesse sido diferente.”

“Talvez não seria, mas poderia ter me falado mesmo e a gente teria uma coisa mais clara para se basear…”

“É, mas naquele momento era loucura mesmo…”

“Beleza… Entendido. Tranquilo…”

Estávamos quase terminando a cerveja e eu buscando a garçonete para já pedir a conta. O único assunto possível já tinha terminado.

“Eu pensei em você ontem…”

“Então foi o seu universo que conspirou para eu entrar no mesmo vagão que você estava… HA HA HA”

“Talvez…”

“Espero que tenha pensado bem. Afinal, nunca te fiz mal…”

“Muito pelo contrário. Dos caras que eu saí, sem sombra de dúvida, o que mais me fez relaxar e me sentir bem, foi você. Se eu fizer uma comparação rápida, você está bem acima da média.”

“Precisa dar uma melhorada aí. Se eu sou o melhor, imagina o pior…”

“Você sabe que é bom.”

“Obrigado… Fico feliz em saber.”

“Eu que não sou tão boa né?”

“Eu não faço comparações. De verdade. Cada um é bom em algo e ruim em outro e por aí vamos… Não é uma crítica, mas eu não faço isso apenas…”

“Entendi… Tudo bem.”

“Vou pedir a conta. Promessa é dívida. 1 cerveja…”

“E se eu quiser outra?”

“Agora você bebe cerveja para caralho?”

“outra coisa…”

“Ah… Eu tô com alguém.”

“Humm…”

“É.”

“Eu juro que eu ficava pensando se você responderia isso para alguém que você encontrasse enquanto a gente tava saindo…”

“Eu não encontrei e nem conheci ninguém nos dois meses que a gente saiu. Mas era diferente, também… Eu sabia que você tinha outros.”

“Como?”

“Intuição. E na boa, a gente nem chegou a ficar tão sério para ter essas conversas…”

“E essa é séria então?”

“Apenas o respeito que eu espero dela também…”

“Desculpa.”

“Zero problemas…”

Eu paguei as cervejas e saímos. Ela seguiria a rua de baixo e eu subiria mais 7 quadras até minha casa. Nos despedimos sem abraço ou beijo. Apenas um “Tchau e obrigado”. Quando ela estava virando a esquina eu falei…

“Sua última mensagem. Você me enviou no dia do meu aniversário. Eu fiquei pensando se você lembrava do dia ou foi apenas um acaso do destino…”

“Eu não sei quando você faz aniversário… Quando foi?”

“Março…”

“Hmmm…”

“Eu já tinha prometido que iria te ignorar. Mas quase eu te respondi. Eu não abri a mensagem, só vi as primeiras palavras. Deletei a conversa e seguiu a vida…”

“Eu não lembro o que era, mas não era parabéns.”

“Perfeito então.”

“Provavelmente foi algum dia que eu lembrei de você como hoje e ainda tinha a razão de te mandar mensagem. Se você tivesse recebido, quem sabe alguma coisa mudaria?”

“Duvido muito…”

“É. Boa sorte na vida.”

“Obrigado… Você também. Se cuida por aí…”

“Obrigado pela conversa. Me tirou muita coisa…”

“O agradecimento é mútuo…”

“Tchau…”

Cada um seguiu a vida com a certeza que as ironias servem para concluir ciclos e esquecer de outros…