E eles se conheceram recitando versos das suas canções favoritas…

Parecia um cliché de filme sem graça e repetitivo, mas foi assim que a conversa deles começou a fazer sentido e mudou completamente os planos daquela noite de verão. Ela já estava cansada das conversas sem rumo da noite, da falta de percepção, malícia ou ironia. Ele já estava com sono e achando aquela situação pitorescamente desagradável – aquele não era seu lugar favorito e a ideia de perder horas de sono já começavam a destruir qualquer pedaço de humor…

Com esse pensamento, ele havia decidido ir para a última cerveja da noite e calculou mentalmente que em 10 minutos estaria voltando para casa. Ela havia decidido pela água, para evitar uma ressaca maior na manhã seguinte, e estava esperando no bar ser atendida.

Não se entreolharam. Não houve nenhum contato antes. Eram dois desconhecidos esperando serem atendidos. O bar estava cheio para seus padrões de paciência, mas ainda assim aceitável. Todos já passaram por isso, aquele momento que um cotovelo apoiado faz toda diferença na seleção nada arbitrária dos garçons. Ele estava ali há menos tempo que ela, mas graças a um casal que saiu do bar, ele conseguiu o lugar da frente e a deixou na segunda fila. Ela achou isso um pouco rude, porque claramente ela estava na frente, mas apenas continuou ignorando todo o resto esperando sua vez.

Ela estava olhando para o outro lado, quando percebeu uma mão no seu ombro. Era o rapaz que havia furado sua frente e estava conversando com a garçonete.

“Eu estou na frente, mas ela está há mais tempo e acho que precisa de algo agora, senão ela vai matar uns lentos que não conseguem sair daqui do bar…”


Ele sorria e ela achou engraçado como ele tinha a capacidade de ler os seus pensamentos sobre as pessoas lerdas que não conseguem desgrudar do bar e acelerar todo o processo para os demais.

“Uma água por favor. Obrigada…”

“10 minutos para uma água. O mundo dos lerdos fazendo suas vítimas fatais. De nada, por tentar te salvar de esperar a próxima copa do mundo para esses três aí liberarem o bar…”

“Eu estava pensando se na próxima semana já teriam as Eliminatórias. Sabe como é né? Para ver se meu organismo conseguiria chegar na próxima copa sem água.”

“Depende do quanto a ressaca de amanhã consumirá do teu corpo.”

“Eles poderiam dar laranjas e cigarros para o calor…”

Ele sorriu e logo completou

“Mas aí eu teria que ter ido para a prisão ou nem ter terminado meus estudos…”

Ela paralisou por alguns segundos. Ignorou a água que a garçonete lhe estendia e esperava o pagamento. Ele sorria com certo ar de ironia e ela apertou os olhos tentando decifrar aquele momento.

“Relaxa, acho que a enfermaria daqui não é grande o suficiente para ter duas macas. Você está a salvo…”


Ela voltou à realidade e pegou a água. Ele pediu sua cerveja e pagou as duas bebidas, mesmo ela relutando que não queria.

“Pelo Hold Steady. Por favor…”

“Maldito Craig…”


Foram para o lado de fora, onde havia muita gente fumando, mas a música estava mais baixa e poderiam conversar normalmente. Era a surpresa de uma noite perdida, mas que nunca fora imaginada.

“Qual a probabilidade de alguém conhecer ‘Chillout Tent’ em segundos de uma ironia que eu sempre penso, mas nunca falei?”

“Talvez a mesma que alguém conhecer ‘Day For Night’ e saber interpretar quando digo que ‘Vamos falar sobre o silêncio’ é um convite para uma eternidade impossível…”

“Verdade, sempre me encantei com o jeito otimista exagerado que parte dali…”

“É uma vitória em meio ao caos de se deixar tudo para trás, porque nada deu certo e criar tudo de novo, e não der certo, e assim por diante.”

“Quase como dizer adeus e nunca mais voltar aos meus pensamentos, mas sair para dirigir e pensar que foi um filme na minha vida…”

“Mas aí, você partiu para um outro patamar. O Brian é um louco alucinado. Se a gente for falar sobre todas essas letras do Midas, é melhor a gente se hidratar mais porque vai faltar saliva.”

“Talvez porque você esteja cheio de pecados e o seu primeiro foi a mentira que você contou…”

“Ou poderia falar daqui a uns minutos que meus pecados nasceram de um beijo em uma noite como essa aqui, falando sobre os corações solitários na multidão…”


Ela apenas sorriu e esperou ele a abraçar. Não houve mais nada que importasse. Eles se beijaram como se aquele beijo significasse a salvação das suas vidas. Como se eles tivessem, finalmente, sido atendidos e todos os seus medos, aflições e desesperos tivessem sumido como mágica. Como se todos os desejos de suas vidas tivessem sido realizados. Ignoraram todos ao redor, porque ninguém jamais conseguiria entender uma palavra do que aquela conversa significava.

Ao terminarem o primeiro beijo, ele arriscou dizer “E o narrador retorna ao palco dizendo que estava cansado daquela poesia melancólica”, mas pensou duas vezes e só imaginou o final daquela mesma música e disse “e mesmo que não existe um era uma vez, é necessário terminar com felizes para sempre” e ela sorriu, porque todo aquele caos em sua mente, agora fazia sentido…