Cada visita era a mesma rotina, ela simplesmente irradiava a alegria de ver o sol novamente e não se importava com o calor ou a umidade que beirava o quase insuportável…
Sua rotina durante as visitas que fazia era sempre a mesma. Ela ficava olhando o céu. Era uma imagem simples, até banal, mas para ela era o melhor momento da vida. “Onde eu moro só tem nuvens, é chato…” dizia ela e se aconchegava na pequena varanda do meu apartamento, com seu café na mão e um sorriso puro no rosto. Eu saia para trabalhar e ela ficava ali, esperando o sol brilhar no seu rosto e ela fechar os olhos com força para se proteger do brilho intenso… Quando eu voltava para a casa, ela ainda estava ali – já mais corada e sem o café na mão, mas com um livro que a transbordava para dentro do seu mundo, que com certeza o sol brilhava tão mais intenso quanto ali.
Passeávamos pela cidade, onde eu sempre mostrava um canto ou algum bar perdido que ela se enchia de alegria por descobrir e poder viver aquela experiência. Em uma dessas visitas, perguntei porque essa admiração intensa pelos dias ensolarados. Ela respondeu com a melhor imagem que até hoje não consigo esquecer: “Minha vida sempre foi tão nublada. Tão fechada, tão cinza… Mas isso…” e ela respirava fundo com um brilho no olhar difícil de descrever, enquanto abria os braços e girava o corpo olhando o céu limpo, azul intenso e com os raios de sol iluminando ainda mais seus olhos claros…
Em uma dessas visitas, o sol não apareceu. O céu se encheu de nuvens pesadas por dias inteiros. As nuvens não deram trégua e, em alguns momentos inclusive, chovia forte e o tempo esfriou. Ela já não tinha aquele sorriso puro no rosto, mas ainda assim estava aliviada. Perguntei se ela estava triste por não ter visto o sol nos dias que ficou aqui comigo. Ela sorriu fraca, me abraçou forte e disse: “A perfeição não existe mesmo, mas que sorte a sua em de ter mais sol que nuvens no seu caminho – mesmo que seja apenas por ilusão – mesmo que seja tudo inventado para me agradar…”
Ela me beijou pela primeira vez desde então e se foi. E eu deixei de sorrir desde aquele beijo que mostrou todos os meus erros até aquela tarde…
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