Admito que quando comecei o Caminho, eu não esperava me emocionar ou sentir a necessidade de extravasar em choro os meus motivos…

Sempre li que as pessoas se emocionavam durante as etapas, mas não me sentia parte daquilo, simplesmente porque meu motivo do Caminho era simples. Ainda bem que estava errado e pude, no momento certo, lavar a alma e poder retirar todo um peso que eu nem imaginava carregar em vida…

Me emocionei muito durante o Caminho, como contei mais ou menos nos capítulos anteriores, de diferentes maneiras. Me emocionei ao encontrar a paz no silêncio e na solidão da natureza. Me emocionei com as paisagens, cores e sons daqueles tantos locais e passos dados. Me emocionei com os ensinamentos do Caminho – de compreender e receber as respostas da vida para as minhas tantas perguntas pendentes, de entender que não existe acaso, de conhecer tanta gente interessante e poder viver, mesmo que por poucos dias, um sentimento bonito de caridade, fraternidade e paz.

Essa emoção transformava meu dia de diferentes formas, mas principalmente acalmava meu coração e aliviava as tensões do corpo. Como se fosse um bálsamo forte o suficiente para relaxar e dar energia para seguir em frente. Todos esses momentos e emoções, eu levei como novos motivos para agradecer – o que fazia as minhas preces mais longas, porém mais benéficas.

Porém, tudo mudou no último dia. Comecei a última etapa com o Luís, um cara de Portugal que faz o Caminho anualmente (creio que ele está no 11º ou 12º ano). Ele caminha muito rápido e começava a chover – o que fazia ele até apertar mais o passo. Fomos conversando sobre receitas de comidas diferentes e como era engraçado ele contar que antes comia de tudo em doses absurdas e agora era vegetariano e come muito menos. Conversamos sobre coxinha e as frituras das nossas infâncias… Foi engraçado os momentos que passamos e conversamos naquele fim de madrugada. Antes dele seguir a sua caminhada e eu me manter vivo com o joelho (porque não queria forçar na chuva desnecessariamente), ele me disse: “Matheus, você reparou que o teu joelho sobreviveu? No primeiro dia que a gente se conheceu você me falou dele e eu falei para você ficar tranquilo, lembra? Viu como eu estava certo? É a magia disso, nada que possa te fazer ruim, vai acontecer… Nos vemos em Santiago daqui a pouco!” e seguiu pela estrada para um atalho, mas eu segui o caminho normal pela trilha, com a lanterna ligada e a chuva caindo mais forte. Menos de dez minutos depois chorei copiosamente de alegria por entender tudo o que havia “ganho” naqueles últimos 14 dias. Foi algo tão natural que eu apenas chorei – como se fosse parte da minha respiração ou até do meu caminhar. Até hoje não consigo indicar o que foi que iniciou essa emoção, mas simplesmente deixei fluir porque era o necessário. Foi uma “crise de choro” que durou quase 1 hora – ou seja, caminhei chorando por quase 4 quilômetros. Naquele momento, agradeci pelos dias, pela proteção nos pés, no joelho, por não ter sentido dores e por ter tudo acontecido de uma maneira tão leve e “mágica” durante o Caminho. Foi uma hora de agradecimentos que eu soluçava um obrigado e ria por nem conseguir falar direito.

Como não existe acaso, eu parei para beber água e tentar recompor minhas energias e vi um rapaz de cabeça baixa, capa de chuva posta e andando apressado. Lancei o normal “Buen Camino!” e ele me respondeu, mas ao ver quem era, a “surpresa”: Era o Alessandro!

Ele havia ficando em um Albergue diferente em Padrón (nossa última etapa) e nos encontramos por ali, naquele meio de etapa, por volta das 7h da manhã. O Alessandro é outro que caminha muito rápido, mas “concordamos silenciosamente” em uma velocidade normal para os dois e seguimos adiante. Conversamos sobre tudo – de diferenças culturais entre Itália e Brasil, até situações amorosas. De política até amigos e vícios… Como contei antes, nunca perguntamos muitas coisas, apenas conversamos o que temos vontade e os assuntos vão surgindo. Tudo acontecia tão naturalmente que parecia sermos amigos de décadas. Lá pelas tantas, começamos a falar sobre o Caminho e suas luzes em nossas vidas. Comentei das surpresas, das respostas que nunca imaginei conseguir e tudo mais… Ele apenas sorriu e apontou para uma parede, onde estava escrito “Santiago não é o fim senão o início”, como tantas outras que cruzei nos dias anteriores. “Agora você entende o que está escrito ali. Você não termina hoje… Você COMEÇA hoje” e rimos desse outro “acaso” dos passos.

Paramos um pouco adiante em uma “lanchonete” (que na verdade era tipo um food-truck com café e pão) porque eu já começava a ter dores na canela e precisava descansar um pouco. Falei para ele seguir em frente no seu ritmo. Prometi que nos veríamos em Santiago mais tarde e celebraríamos aquele começo…

Antes de partir, ele me falou: “Só uma última coisa que eu comentei ontem e acho que vale para nossos cem assuntos de agora, mas que você já sabe: O Caminho não te dá nada. Você consegue as coisas estritamente necessárias para sua vida. Nada além do seu merecimento. E assim também é a vida, a gente sempre pede mais, tenta mais, quer mais. E no final acaba frustrado por inúmeros motivos. Mas, por quê? Você começou o Caminho para agradecer tudo o que você teve nos seus 40 anos e não tá cheio de coisas aí? Quantos que você conhece não tem metade disso tudo que você agradeceu? Veja quantas bênçãos existiram na sua vida… E uma última coisa: Você me motivou para eu repetir um novo Caminho nos meus 40 anos. Obrigado Matheus!” e seguiu…

Eu fiquei ali, com os olhos mareados e tentando me segurar sem nenhuma razão aparente. Terminei a minha Coca-Cola e me despedi da senhora da lanchonete. Eu já chorava naquele momento, mas nada comparado ao que estava por vir…

Naquele momento uma avalanche de coisas invadiu meu corpo e eu não conseguia parar de chorar. Relembrei as situações passadas, as dores que eu tive e não consegui expressar no momento. Chorei pelas angústias que me consumiam em diversas semanas e que ninguém fazia ideia. Lembrei de todas as derrotas e das vezes que duvidaram de mim. Chorei pela solidão, pela distância, por ter (e talvez querer) me provar cada vez mais. Chorei por ter conseguido vencer em diversos momentos. Chorei por ter aprendido com as derrotas e chorei por estar ali chorando por todas aquelas lembranças. Chorei relembrando o último jogo de futebol, que sem querer desencadeou aquele Caminho. Chorei pelos medos que tive, pelo desconhecido que enfrentei, pelas mudanças que forcei e por tantas aventuras que passei, mesmo sem nem ter ideia de como sobreviver. Chorei pelo que aprendi, por tudo o que eu sabia, chorei por me tornar o que sou hoje e chorei pela minha família, porque foram os grandes responsáveis disso tudo…

Não sei dizer quanto tempo fiquei naquele estado. Continuava caminhando, relembrando, agradecendo e chorando por tudo aquilo que estava passando. Agradeci, ainda mais, pela luz, proteção e ensinamentos que eu jamais pensaria em ganhar. Agradeci pela vida – por ter muito mais que eu achava necessário, mas que no final, era meu por merecimento.

Faltava 1h30 para Santiago de Compostela – entrava nos últimos 6 quilômetros daquela jornada que havia começado 400km antes. Naquela “emblemática” placa dos últimos 6.66kms, decidi parar de agradecer e fiz um juramento e um pedido: Jurei que a partir daquele novo início, eu lutaria, dia após dia, para ser merecedor de todas as glórias e oportunidades que a vida (ou deveria chamar de Caminho?) me presenteasse, e que levaria para sempre o meu “Glória a Deeeeuuuuxxxxxx” nos meus passos.

O pedido foi: “Deus, se você tiver afim, quando eu chegar em Compostela, me traz o sol para que eu possa aproveitar melhor a cidade?