“Pronto Má! Tô livre. Quando nos vemos?” e essa foi a quinta mensagem com o mesmo teor que recebia…

Talvez esse tenha sido o mais errado de todos os relacionamentos que tive. Por toda a magia que foi construído, ele se mantinha pelo puro prazer temporário. Mas ambos sabiam que o erro foi ter levado a conversa adiante…

Eu a vi pela primeira vez quando ela deixou cair todas as compras feitas no mercado. Uma sacola arrebentou e, com o susto, todas as outras foram ao chão. Ajudei-a a pegar tudo do chão e ríamos a cada item recuperado. Salvamos os itens e ela foi acomodando tudo no carro. Não lembro a razão, mas durante esses minutos eu não havia olhado para seu rosto. Quando realmente nos olhamos, aconteceu…

“Nossa, depois dessa eu acho que deveria te acompanhar nas suas compras né………”

“Matheus… Relaxa, não precisa não… Eu acho que as minhas não serão tão pesadas e vou tentar levar o carrinho até o carro…”

E mais risos…

“Me chamo Marcela.”

“Prazer Marcela…”

“Muito obrigado pela sua bondade e paciência…”

“Nada… Nem precisa agradecer. Você faria o mesmo….”

“Se fosse com você, sim.”

“Que sorte a minha né?”

E pela forma direta que ela falou, sabia que era uma abertura. E arrisquei…

“Pensando bem, acho que podemos criar tipo um plano de ajuda, né?”

“Como por exemplo…”

“Eu te passo meu telefone. Se você tiver uma situação assim, quem sabe que possa te acompanhar e ajudar novamente… Acho que vale a pena. Tipo um SOS Mercado, sabe?”

“E se for um SOS fora do mercado, você também costuma ser prestativo?”

“Creio que sim. Gosto de ajudar as pessoas…”

E quando ela pegou o celular, reparei na aliança em seu dedo…

“Ou talvez não, né?” eu disse

“Não… Não… Pode passar. Fica tranquilo”

Daquele dia até a quinta mensagem que abriu esse texto foram pouco menos de quatro meses. A desculpa para tudo isso foi o mix clássico de ausência, mudanças, falta de tesão, de perspectiva e arrependimento, que brotavam de maneiras interessantes e talvez conturbada demais. O enredo era sempre o mesmo… Ele viajava pelo trabalho mensalmente e ficava uma semana fora. Era a semana que ela via as suas amigas e tinha seu momento só. Nos quatro anos de casamento foi assim. O que no início era bom, depois foi ficando chato e monótono. Nunca perguntei se havia sido o primeiro, porque seria imbecilidade pensar isso. O jeito dela demonstrava que sim, mas nunca confiaria mais do que um minuto além…

“Gosto de estar aqui contigo. Estou naquelas de contar os dias para a próxima viagem dele…”

“Bobeira. Você sabe que não é assim…”

“Talvez, mas nem tenho porque mentir…”

“Não? Certeza?”

“Você sabe que estamos aqui porque teu sorriso é fodastico, como você diz. E hipnotizante”

“Eu não estou rindo agora…”

“Por dentro está e isso já é suficiente… Teus olhos dizem isso.”

E tudo corria a mesma rotina e processo bem estudado. Marcávamos em um ambiente X – Eu não sabia onde era sua casa e nem ela a minha. Íamos ao motel, transávamos com uma urgência característica e íamos jantar depois. Eu pagava o motel. Ela o jantar. E era óbvio entender o porquê.

“Eu sei Má. É errado com ele. É errado comigo. É errado com você…”

“Nada errado comigo. Eu estou errado aqui, mas você não está errando comigo.”

“Mas é um erro bom, certo?”

“Não sei Marcela… Por mim está OK. Você não está aqui por obrigação ou porque eu estou te ameaçando ou tu tá me devendo…”

“Estou sim, os valores nunca batem certinho.”

“Você entendeu meu ponto.”

“Eu preciso pedir divórcio. Mas preciso de uma estrutura melhor de vida. Pensar o que fazer depois. Porque o que nos sustenta é apenas isso…”

“Não Marcela, eu não existo depois. Eu e você acabamos aqui e você sabe disso…”

“Sim, loucura pensar o contrário. Você nunca confiaria em mim.”

“Nem por dois segundos… Como você em mim.”

“Sim… Mas é isso…”

Na manhã seguinte da quinta transa ela me escreveu dizendo que pensou muito e havia decidido conversar com ele no final de semana. Contaria tudo e, por segurança, apagaria e bloquearia meu número. Fez um longo desabafo de que havia curtido tudo e jurado que lembraria de mim com todo o carinho e respeito possível – Essa parte eu nunca entendi bem a razão, mas sorri vendo que ela já havia bloqueado meu número e não adiantaria resposta.

Sem querer eu decorei a placa do seu carro. Eram as mesmas iniciais do meu com números diferentes. Das coisas que guardamos na memória sem saber a razão… Mais de três anos depois, durante as minhas férias no Brasil, o seu carro parou na minha frente no semáforo e pela sombra, reconheci seu jeito e cabelo. Pensei em buzinar ou fazer sinal, mas resolvi emparelhar meu carro no próximo semáforo. A janela aberta deixava claro que ela cantava uma canção infantil, olhando para o banco de trás. Aí reparei no bebê na cadeirinha atrás.

“Não creio! Matheus!” ela exclamou depois que eu buzinei antes de entender toda a cena…

“E aí Marcela… Tudo bem?”

“Para… Para… Para… Por favor!!”

Paramos o carro para nos atualizarmos das vidas presentes. Contei da minha aqui e ela a de lá. Ainda estava casada e disse que tudo mudou depois da conversa que teve. Ela havia sido traída também e isso tudo deixou as coisas de alguma forma melhores e mais claras para os dois. Se entenderam e um ano depois ela engravidou. A filhinha tinha quase dois anos e era um elo forte que segurava a recém família “criada”.

No fim nos abraçamos e ela nunca perderia o momento para a brincadeira

“Você não pensou que era sua né?”

“Nem por um segundo…”

E rimos.

“Fiz essa piada medonha só para ver seu sorriso maldito! Ainda continua igual…”

“Eu fico feliz que você agora esteja bem e completa”

“Obrigada Má. Adeus”

“Adeus Marcela, se cuida mulher!”