O que parece uma liberdade e uma alegria sem ter qualquer amarra, logo se mostra fútil, raso e completamente falso…
Depois da tristeza e da leve depressão que abalaram André e Regina, em intensidades e razões diferentes, logo veio uma sensação boa de liberdade que há tempos eles não desfrutavam ou sentiam. Era como se estivessem “de volta ao jogo”, tentando se readaptar e prontos para curtir e conhecer novas pessoas que agregassem diferentes pontos em suas vidas – há tanto desgastada e sem graça. A reaproximação com amigos solteiros e tentar “reaprender” o jogo de sair, conhecer pessoas e tentar algo mais que uma noite apenas.
Regina tinha um caminho um pouco mais simples e tentou continuar com Murilo, mas apesar de terem saído mais duas vezes, a chama havia terminado. Parecia que Murilo não estava mais tão afim de “continuar” sabendo que tudo poderia ficar mais sério e teriam que assumir alguma coisa em pouco tempo. Regina também começou a ficar um pouco incomodada com o fato de ter sempre que pagar a conta, situação que para ela não era um problema, mas esperava algo mais do que aquilo. Quando tocou no assunto se viu em uma discussão infantil onde teve que ouvir que ela era médica e ganhava em um mês o que um personal demoraria dois anos para ganhar. Aquela ducha de água fria desfez qualquer resquício de vontade e as conversas minguaram junto com os encontros.
O mesmo passou com André. Conseguiu conhecer duas mulheres mais ou menos da sua idade e o tema de dinheiro e família pesavam muito nas conversas. “Dê tempo ao tempo camarada. É assim mesmo” é o que dizia Bruno e seus outros amigos, mas estava um pouco cansado de conhecer gente que o estereotipava, como Diretor Financeiro, em alguém que poderia dar uma vida estável para quem mal conhecia. Se via perdido entre encontros chatos, conversas vazias e interesseiras, para tentativas de sexo que ou eram estranhas ou inexistentes. Estava um pouco cansado de pagar a conta e dirigir horas depois de volta ao seu novo apartamento sozinho. Sentia falta de um filme tranquilo e a discussão sobre notas de uma cerveja nova que havia comprado.
Regina havia ficado no apartamento antigo. Eles tinham comprado há três anos e ela havia mobiliado e criado a maior parte das coisas, assim André sabia que o mais natural era ele sair e seguir sua vida. Nos meses que passaram desde a separação, não haviam se falado. André sabia dos horários da ex-noiva, então foi pegar as suas últimas coisas enquanto ela trabalhava. Deixou a chave na mesinha da entrada e fechou a porta “para sempre”, sem um bilhete ou uma mensagem qualquer.
Coincidentemente naquele mesmo dia, ela teria um encontro de aplicativo com um cara que parecia interessante (mas que ela nem lembrava o nome – sempre tinha que olhar no WhatsApp para se lembrar), mas ao chegar e ver a casa mais vazia, a chave ali posta e sem nada mais, sentiu um vazio absurdo e resolveu cancelar o encontro. Abriu um dos poucos vinhos que tinha – ela gostava mais de cerveja mesmo – e chorou um pouco da situação que estava vivendo.
André estava tentando ocupar a sua cabeça com o novo apartamento e das coisas que tinha que comprar no seu “novo lar”. Sua nova rotina era jogar futebol duas vezes na semana e ocupar a cabeça o máximo possível com o trabalho para tentar mascarar toda a solidão que sentia ao chegar em casa. Várias eram os momentos que tinha que tomar algum whisky ou mesmo pílulas para dormir e não sufocar nos pensamentos que estavam à sua volta.
Cinco meses se passaram e a rotina dos dois ia se ajeitando um pouco. Regina havia tentado sair com mais três caras. Mas descobriu que a “realidade” era a insistência por sexo e a superficialidade das conversas. Se sentia um pouco “usada” depois de poucas palavras e ter que relaxar ou ter tesão por alguém que mal falava português correto. Transou algumas vezes, mas gozou apenas uma e mesmo assim, não foi a melhor.
André o mesmo. Se viu broxando algumas vezes com as garotas que saia e começou a se preocupar com tal “novidade”. Conheceu Marina que ele jurava ser a mais normal delas. Ela também havia se separado há pouco de um relacionamento longo e era a única que se sentia à vontade para falar das coisas de maneira mais aberta. O problema é que criou um carinho por ela e a relação deles era apenas conversas mais “pesadas” e nenhum sexo. Ele se sentia bem, mas Marina queria algo mais e assim, de forma bem natural e tranquila, conversaram e prometeram continuar amigos. Mesmo sabendo que isso não passaria da página dois.
Era um fim de tarde de um sábado nublado, mas quente. Ele tinha marcado com Bruno de ir em uma nova cervejaria para aproveitar um pouco o dia, mas assim que pediu a primeira cerveja, o amigo enviou uma mensagem dizendo que o haviam chamado do trabalho para resolver um problema de uma migração de servidor e não poderia se encontrar com o amigo. André relaxou e resolveu aproveitar um pouco do lugar mesmo sozinho. A cerveja estava OK e ia começar uma banda, assim que era melhor estar ali do que sozinho em seu apartamento. Pediu a segunda cerveja, de um estilo diferente, para que experimentasse o máximo possível…
“Dé?”
“Oi Regina… Tudo bem?” falou ele meio que assustado
“Tudo. Tá sozinho?”
“Sim. O Bruno ia vir, mas acabou tendo um problema no trabalho e sabe como ele é né?”
“Ainda tá na mesma loucura de sempre, pelo visto…”
“Pior. Agora conseguiram mais duas contas grandes e ele disse que ambas tinham um projeto de migração meio que juntas. Já conhece como ele é né…”
“Ô se conheço…”
“E você? Tem algum encontro?”
“Não. Desisti disso… Passei aqui na semana passada porque voltei para minha antiga academia e achei legal aqui. Entrei no Instagram e fiquei com vontade de vir experimentar as cervejas. Essa banda aí é aquela que tocava no Bambuzal. Não sei se você lembra…”
“Ah! Sabia que eu já tinha visto esses caras em algum lugar. Sabe que eu sou perdido nessas”
“Sim. Então quando vi que eles iam tocar e não tinha nada programado, uni o útil ao agradável né?”
“Entendi…”
“Bom, vou pegar uma cerveja. A gente se vê…”
“Senta aqui pô. Não tem porque ficar sozinha. A Blonde deles é ok, mas acho que você não vai curtir muito. Pedi essa Sour com maracujá. Por incrível que pareça, você vai gostar dessa. Não é tão amarga…”
“Posso?”
“Claro. Experimenta aí”
“Hm, interessante mesmo. Tomou alguma outra?”
“Não.”
“Então vou pedir a NEIPA e a gente vai vendo qual que é a melhor. Pode ser?”
“Claro…”
Estranhamente aqueles quase cinco minutos, haviam sido o maior diálogo deles praticamente em um ano. Depois que a cerveja dela chegou, ficaram conversando um pouco dos trabalhos e dos amigos que ambos conheciam. Se divertiram com os sabores das cervejas e com a banda que tocava. Pediram mais três cervejas e, conforme o álcool foi subindo, eles foram ficando mais à vontade e a conversa flui de maneira mais intensa.
“E você Dé? Muitas menininhas novas?”
“Nada. Não vou mentir falando que não sai com ninguém, mas me cansei um pouco de ser estereotipado e da superficialidade que as pessoas hoje têm. Acho que estou velho, sei lá…”
“Te entendo completamente. Ainda mais pela posição né?”
“Sim. Impressionante! Eu não sei o que elas pensam, mas é bizarro…”
“E eu sendo médica? Consegue imaginar?”
“Talvez…”
“É. Acho que perdi as vezes que as conversas foram, ‘mas você é médica né? Ganha muito dinheiro…’ ou o ‘não é caro para médicos né? Para pobres mortais é sim…’ e me cansei”
“E o carinha lá?”
“Paramos logo depois. Sei lá. Talvez tenha perdido o encanto por ser algo ‘errado’ e ele saber que não teria nenhuma continuidade. E essas conversas chatas aí, começaram ali…”
“Ah…”
“É.”
Tentaram continuar os assuntos, mas era nítido a falta de vontade em aprofundar as vidas e situações atuais. Mudaram de assunto, voltando para discutir as cervejas e seguiram assim até o fim da banda, quando notaram que já era tarde e o bar logo fecharia.
“Acho justo então você pagar, já que é médica…” e ela riu da maneira irônica que ele sempre relembrava uma situação e a usava na medida certa em uma piada descontraída. Ele gostou de ouvir novamente a risada leve e verdadeira da sua ex-noiva, era reconfortante.
Os dois estavam de carro, porque não imaginavam ficar tanto tempo no bar. Ele ofereceu leva-la para casa, mesmo sabendo que era um risco dirigir depois de tantas cervejas. Ela agradeceu, mas estava bem e já estava tomando água há algum tempo para não ter maiores problemas.
“Dé, foi muito gostoso hoje. Obrigado! Há tempos que não me divertia…”
“Que isso am… Rê! Foi fantástico.” Quase a chamando de “amor” como antes.
“Meu telefone não mudou. Se quiser algum dia desses…”
“Serve o mesmo para você, apenas o endereço que é novo.”
“Precisa de ajuda na decoração?”
“Acho que o minimalismo é mais minha cara no momento”
E riram juntos da casualidade que tudo aconteceu. Se abraçaram e foram para seus carros. Voltariam para suas “novas vidas”, mas sabendo que ao menos um dia o passado voltou para alegrar o presente de ambos…
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