A chuva caía no fim de tarde e pintava toda a cena bucólica demais para o enredo existente…

Ela caminhava de cabeça para baixo e pouco notava o seu redor. Seus olhos quase não piscavam e ia desviando das outras pessoas e obstáculos como por mágica. Seu corpo estava ali, mas sua mente estava há alguns minutos antes, quando tudo parecia bem e desmoronou sem um aviso prévio…

Ela nunca se acostumava com as tormentas que aconteciam sem aviso prévio. Ela gostava das nuances dos avisos, dos primeiros momentos quando os ventos começavam a mudar de direção e até mesmo quando o cheiro da chuva brotava no ar, mesmo com o sol torrando sua pele branca. Ela tinha certo desejo por esses “micros sinais” que a natureza mostrava e planejava seus passos com certa antecedência. Mas não foi o que aconteceu naquele fatídico meio de tarde. De repente todas os seus planos foram lançados para um além inexistente e todos os seus medos reapareceram nas esquinas que ela tanto evitava caminhar.

Ela evitava chorar, mas não conseguia mais sorrir. Os motivos eram os maiores e mais comuns possíveis que iam desde a perda da rotina que ela estava tão familiarizada, até a falta de uma lembrança real de um momento de amor pleno. Esse talvez era o pior dos sentimentos que gelava a sua espinha. Quando havia sido o último beijo quente? Quando havia acontecido o último atrito acalorado por toda aquela paixão que ela jurava sentir?

Eram essas perguntas que atormentavam seus passos e cansavam seu corpo. A chuva foi apertando e ela seguia seu passo cadenciadamente triste e conformada que todos os demônios do passado iriam bater à sua porta para recuperar a morada passada. Por isso talvez ela caminhava sem rumo e longe de sua casa. Queria gastar o máximo de tempo possível longe do seu claustro, pois ali as perguntas ecoariam mais forte e mais profundamente. Foi assim da última vez e ela estava tão feliz que já nem lembrava como era aquela situação…

Esbarrou em uma senhora na rua e se desculpou quase sem ter força para que a voz saísse audível. Naquele momento estava completamente encharcada, mas ainda assim não havia lágrimas em seu rosto. Parecia que ela havia extinguido toda a possibilidade de chorar novamente e assim se sentia mais forte, mesmo perdendo as forças a cada segundo.

Refez o caminho para casa quando as ruas estavam desertas o suficiente para saber que a hora era mais do que avançada. E naquela mistura entre tristeza, pensamentos e frustrações, uma pergunta martelava sua cabeça mais forte: Quando havia sido o último beijo? Ela não lembrava e o que a deixava mais triste era notar que aquilo tudo que ela jurava real, havia terminado há tanto tempo que não existia mais lembranças reais…