Depois de 14 dias, 407 quilômetros e incontáveis lembranças, a Catedral de Santiago de Compostela aparecia no horizonte, com um sol brilhante e quase sem nuvens…
Confesso que tinha pensado no que fazer quando chegasse aquele momento. Pensei em me jogar no chão e agradecer pelo final da jornada, beijar meu joelho e até jogar a mochila para o alto… Porém, todos aqueles planos, feitos meses antes do Caminho, pareciam não fazer mais sentido. Então decidi curtir o meu início de jornada livre de roteiros e planos…
Quando você chega ali na praça da Catedral, encontra de tudo um pouco. Gente gritando, gente ligando para amigos e familiares, gente chorando, gente deitada, gente correndo e até a galera que apenas concluiu mais uma etapa e vai seguir para outra jornada (ou até mesmo para Finisterra). Você acaba sendo mais um naquele “caos ordenado” de alívio e alegria. O que faz completo sentido, depois de 14 dias vivendo praticamente para aquele momento.
Eu segui para conseguir a minha Compostela, o documento em latim que “oficializa” minha peregrinação e o rapaz perguntou se aquele era meu nome mesmo. “É o da minha família, eu fiz em agradecimento, logo eles são os primeiros responsáveis, né?”. Ele sorriu e me entregou o documento impresso. Fui dar uma volta pela cidade e relaxar pelo objetivo alcançado, agora oficialmente.
Aos poucos fui encontrando, sem marcar ou combinar, os “amigos de Caminho”. Primeiro foi o Alessandro. Nos abraçamos, agradeci pelas palavras e ele estava com pressa porque tinha que seguir para o Albergue, tomar banho e pegar a missa dos peregrinos em italiano. Prometemos uma cerveja para mais tarde e se foi. Pouco tempo depois, a Krystina chegou e acabou encontrando outra conhecida que havia caminhado nos primeiros dias. Almoçamos e brindamos a nossa chegada e a conclusão da Aventura. No fim da tarde, do nada encontrei o Luís em uma loja de souvenir. Partimos todos os que haviam terminado a jornada no mesmo dia para um brinde oficial. Aquele mesmo sentimento ainda se fazia presente – a leveza da alegria em estarmos ali e vermos, tantas pessoas diferentes, concluindo seus objetivos… Sinceramente eu não lembro especificamente de uma única conversa daquela noite, mas talvez tenha sido melhor assim, porque naquele momento nenhum tema seria necessário para ser lembrado…
Para ser sincero, os dois dias em Santiago de Compostela foram muito especiais e íntimos na sua realidade, mas hoje eles causam certo desconforto e tristeza. É duro entender que aquela realidade dificilmente faria parte de nossas vidas e de nosso cotidiano. Dificilmente manteríamos o contato uns com os outros e nos tornaríamos melhores amigos. E isso machuca hoje, porque todas as pessoas e nomes aqui presente existem e foram partes dos meus passos nos 14 dias de Caminho. Pouco a pouco, eles se foram e agora são como meras lembranças, mas que jamais serão esquecidas.
No final, a conclusão que importa é o todo que essa jornada criou em sua vida. O que ela criou nos seus passos.
Concluí meu objetivo de caminhar até Santiago, mas compreendi que essa experiência mudou minha percepção de mundo e minha maneira de enxergar as oportunidades e situações que estamos sujeitos. Compreendi que aquilo sim era o início e que uma nova etapa iniciou naquele “Km 0” de Santiago de Compostela.
O Caminho me mostrou o quanto sou forte e o quanto minha vida é rica. Me mostrou que as frustrações fazem parte do aprendizado, mas que não devemos desistir porque existem inúmeras outras situações que vencemos e não damos o devido valor. O Caminho fez eu me arrepender dos meus erros, sem ter vergonha em admiti-los e chorar para limpar as marcas deixadas. O Caminho me deu força, liberdade, alegria, energia e confiança – em mim e no mundo ao redor. O Caminho me mostrou que não é preciso correr em busca de mudança, porque isso tudo está dentro de você e apenas precisamos alinhar nossos pensamentos e viver essas diferenças necessárias. O Caminho reforçou meu sorriso, meu jeito de ser, meu carisma e minha alma. O Caminho não fez um novo Matheus… Ele apenas limpou, com os dias de chuva e as lágrimas pesadas, a minha alma por completo. O Caminho não abriu um novo livro, ele apenas virou uma página velha e me convidou a começar um novo capítulo, me deixando livre para continuar o roteiro ou criar aquela reviravolta básica que faz todo mundo feliz.
E sim, parte disso é o meu juramento de entender que sou merecedor de todas essas benção e situações, e assim deixo meu eterno obrigado a cada uma das pessoas que me ajudaram, ensinaram, emocionaram e que permitiram compartilhar um pouco de sua vida comigo. Seja por algumas horas ou por dias inteiros. Foi a melhor experiência da minha vida e tenho um orgulho e alegria enorme em ter conhecido cada uma dessas pessoas.
Resolvi chamar de “Retratos de um Caminho”, porque no significado geral cada um dos capítulos anteriores são retratos do meu Caminho. Não são imagens, mas um conjunto de lembranças e palavras que simbolizaram e reforçaram os meus passos em direção ao novo capítulo – ou quem sabe a um novo Retrato? Isso apenas o tempo e os passos futuros dirão…
Concluo por aqui seguindo também o meu juramento: Buen Camino e GLÓRIA A DEEEEUUUUXXXXX!
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