Sabia que a porta estaria aberta. Ela só fechava quando ia dormir. Era o seu jeito de sentir a liberdade…

“Vamos tomar umas cervejas porque preciso relaxar e esquecer umas coisas… Vem quando tiver pronto”. Essa foi a mensagem que recebi enquanto jogava futebol. Não respondi porque já esperava algo assim naquela semana. Quando entrei havia uma sacola grande de lixo ao lado da porta. Não de lixo em si, mas de presentes e lembranças…

“Opa… Andou ocupada hein?”

“Nem me fale… Tinha coisa dele hein. Nunca me dei conta quantos presentes ele me dava…”

“E tu tá jogando fora tudo?”

“Mas é claro que sim! Que pergunta…”

“Nada te serve?”

“Tudo serve Má, mas para que vou guardar algo dele? Acabamos…”

Ela tinha terminado um relacionamento longo, intenso e cruel. Foram anos construindo uma história que ela acreditava – e queria – que fosse infinita e cheia de motivos e lembranças. Mas, ela descobriu que tudo era mentira. E da pior maneira…

“Acabou o relacionamento, mas não a utilidade do presente né?”

“Eu não quero nada que me lembre… Querendo ou não. tudo vai carregar lembrança. E eu querendo ou não vou ficar pensando se quando me presenteou estava fazendo por vontade ou para tentar encobrir alguma merda…”

Ele tinha outra. E não era apenas “Outra” de uma traição “comum” e passageira. Estava quase há dois anos com o relacionamento em paralelo. Preenchendo perfeitamente todos os espaços da rotina que foi criada em conjunto. E a “outra” sabia de todos os passos. Inclusive frequentou algumas vezes o apartamento e festas… No fim, era um rosto conhecido que ria da falsa ilusão de relacionamento fiel.

Não me assustei com a decisão rápida e “difícil” da separação. Éramos amigos há mais tempo que o seu relacionamento. Eu vi a forma que começou e como ela estava feliz em achar algo diferente no meio de um mundo todo igual.

Eu sabia que ela sofria por dentro, mas ela sempre falou que era melhor sofrer uma enxurrada de vez, do que ir sofrendo aos poucos. Ela sempre preferiu tempestades fortes e rápidas. Talvez ela fosse a mulher mais direta que eu conhecesse. E foi assim que a nossa amizade nasceu e cresceu. Sem papas na língua e sem meias palavras. Ninguém entendia, mas a gente sabia que era real.

Ficamos bebendo e conversando sobre outras banalidades enquanto ela terminava de arrumar duas caixas com bichos de pelúcia que iria doar para diferentes crianças.

“Você usa coisa das tuas ex-peguetes?”

“Claro… Sem pensar muito, tudo o que tenho aqui hoje foi presente de mulher praticamente…”

“Você é louco…”

“Olha… O chaveiro de casa. A carteira. Essa camiseta. A camisa que uso de pijama. A mochila… Vish, tem coisa hein?”

“Tu é maluco Matheus… Por isso que você vive revivendo as coisas…”

“Não acho. Você usa algo porque é útil e você gosta… Não necessariamente que vou pensar 100% na pessoa que me deu o presente durante estiver usando. Não faz sentido…”

“Sim, não vai ser sempre. Mas pode ser de vez em quando e não quero isso. Tudo parece mais intenso. Tudo parece cheio de significado e não quero correr o risco de reviver isso tudo…”

“Sim, teu caso é mais diferente, mas se você realmente gosta de algo e te faz feliz, não é por causa dele que você não deveria usar…”

“Eu compro outro se sentir falta de algo…”

“E pode ser pior, daí você vai comparar…”

“Vai ser melhor. Com certeza…”

E bebemos mais. Revivendo outras histórias. Mudando de assunto quando chegava em pontos complexos e evitando os lugares comuns tão conhecidos daquela situação. Quando voltei para casa aquela noite, resolvi tentar listar todos os presentes que ganhei e que ainda usava. A lista tinha mais de 30 itens e tenho certeza que ficou coisa de fora. Mandei para ela. Ela riu. Me chamou de louco. Expliquei que as memórias são revividas de maneiras diferentes e eu gastaria um dinheiro muito alto para comprar tudo novamente. Preferia gastar em boteco e cerveja. Ela se auto convidou para um boteco no dia seguinte e assim era a nossa amizade, uma eterna troca de assuntos e quase sem travas para acabar…