Ela sempre marcava os dias de sol. Era como se fossem presentes inesperados que recebia quando acordava…

Ela preferia colori-los em um calendário. Era uma aquarela recheada de cores vivas e vibrantes. Gostava de rever os dias passados e sempre colocava algo para lembrar o que havia acontecido. Um chocolate, um suco, um passeio no parque ou até mesmo um beijo. Sim, marcava os beijos que ganhava – ou buscava, com seu sorriso aberto e sempre atenta.

Tentava fugir dos dias nublados. Não pelo tempo fechado que assolava sua alegria, mas era ali, encolhida em suas aflições e roupas mais grossas, que as lembranças vivas brincavam. Traziam, além do frio, gostos amargos dos antigos passos e das brigas e aflições vividas. Era ali, sem o calor espontâneo do sol que as dores reapareciam e não a deixava esquecer…

Por isso que ela tinha o gosto pelo sol. Pela liberdade, pela alegria do parque, pela leveza das roupas e da mente. Mesmo que estivesse criando novas lembranças. Mesmo que estivesse brincando com o sentimento de alguém. Mesmo que estivesse matando os sonhos… O sol é maior que tudo e todos, ela dizia quando ia se deitar e apagar em um sono sempre vazio de sonhos, pois já não existiam mais…