E voltei ao bar de tantos anos atrás e ali estava eu. Sozinho, com minha cerveja na frente e algumas boas recordações…
Foi uma volta ao tempo de descobertas e poucas certezas. Olhei as paredes mudadas, as mesas iguais, o balcão de antes que nunca fiquei, pois sempre o dono fazia questão de sentarmos. “Balcão aqui é só para pegar e ir sentar. O conforto em primeiro lugar” era o seu lema. Fiz a mesma piada de antes, mesmo ouvindo a mesma resposta de sempre. Lembrei das inúmeras amizades que fiz por ali entre as dezenas de mesas. Desde dono, funcionários ou simples clientes, pois ali era mais ou menos minha segunda casa. O lugar que meus pais sabiam que eu iria e conheciam também…
Refiz este caminho porque estava um pouco perdido. Um pouco cansado da rotina, das coisas superficiais, acabado, deprimido, nervoso… Enfim, um tanto triste… Um ser perdido no caminho milenar, mas seguindo a corda-guia da rotina. E precisava de algo para reviver uma época em que pensar no futuro, era vislumbrar uma vida impossível e que parece tão normal com os vinte e poucos anos. Não importa o quão “adulto” você era, ainda assim era uma criança aprendendo a andar e encarar o mundo cruel.
Ali, entre um gole e outro, tentamos, sem sucesso, atualizar todos os pontos perdidos nos anos que fiquei sem aparecer. Não faria nenhum sentindo, então o melhor era recordarmos das piadas, das festas feitas, das discussões e dos mil planos mirabolantes que traçávamos entre uma matada de aula ou um “estudo intensivo” de outra matéria. Ele mostrou algumas fotos, já castigada pelo tempo, mas que mostravam um “jovem” crescendo e um “velho” que tentava se reinventar.
“Depois que vocês se foram, eu perdi um pouco a alegria de vir aqui… Nem era por causa do dinheiro, era porque eu pegava a energia de vocês e tentava fazer algo diferente para mim… E é isso que você veio tentar buscar, né filho? Você parece cansado e perdido…”
Era verdade, mas não queria expor nada além das boas lembranças. Ele não forçou, apenas ficou ali, pouco mais de quarenta minutos, ouvindo, completando histórias e fazendo companhia. No final, ele me abraçou, deu um aperto de mão forte drenado pelo tempo e pediu que, se possível, retornasse ali de vez em quando. Prometi que passaria antes do fim das minhas férias.
Fui embora com o sorriso no rosto, de um lugar que nunca deveria ter mudado, mas que foi suficiente para enxergar que as mudanças são necessárias. Foram duas cervejas que ele não queria cobrar, mas que paguei mais do que valiam.
“O valor desse momento não é mensurável e tu não faz ideia do quanto me fez bem. Eu volto aqui, ok? Até porque, beber cervejas em número par não dá sorte, não é mesmo?”
“HAHAHAHA! Ainda leva esse ‘ensinamento’ à risca? Obrigado, fico mais feliz por ter ensinado algo que se perpetuou na sua vida. E te aguardo, porque sei que você cumpre o que fala, sempre foi assim… Desde quando era um magrelo de óculos que adorava a lua e sonhava com o brilho nos olhos. Eu vou esperar…”
Antes do fim das minhas férias, refiz o caminho de sempre e voltei ao lugar para cumprir minha promessa. Estava fechado e com a placa de “Aluga-se” em três locais visíveis para os que passavam por ali. Parei e os móveis ainda estavam ali, mas o ar parecia morto há tempos. Liguei para a imobiliária e perguntei o que havia acontecido…
Meu amigo faleceu duas semanas depois da minha visita. Não pedi nenhum outro contato, pois não conhecia ninguém da sua família e não faria sentido, pois eu não teria nada para falar ou perguntar…
Fui até um posto de gasolina perto dali, comprei três cervejas, e voltei ao estacionamento do bar. Fiquei ali, falando sozinho por cerca de trinta minutos. Desabafei um pouco da angústia, contei outras histórias que lembrei depois da minha última visita e me despedi pela última vez…
“Não foi do jeito que eu imaginava, mas estou aqui com a minha promessa, né? Espero que você fique bem e obrigado por tudo. Você me ensinou que beber cervejas em número par dava azar, mas nunca pensei que fosse tão forte. Hoje foram 3, ok? Espero que me perdoe e que um dia nos encontremos por aí… Adeus Chico!”
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