Era sua cidade natal e, mesmo que tudo tivesse mudando e muita coisa fosse diferente, ainda era sua cidade…

Ele sempre gostou de caminhar e há muitos anos preferia voltar dos bares e baladas a pé – mesmo que o álcool e o cansaço fossem maiores do que o aceitável. Ele caminhava sempre por ali, era seu momento do dia para reviver fantasmas e doces lembranças. Era o momento para reviver antigas histórias e diálogos perdidos na memória. Ele sempre gostava de criar uma volta a mais, passar em uma rua qualquer e lembrar de alguém ali, uma menina lá e alguma loucura mais à frente… Era sua forma de sorrir.

Ele gostava de andar, pois tinha medo de quando fosse esquecer de algo. Era seu maior temor. Esquecer algum detalhe que já o tivesse feito delirar. Ele sempre teve esse medo. Era seu segredo maior. O esquecimento de algo que já foi importante…

Lembrar os grandes momentos era normal. Ele gostava mesmo era dos detalhes. Sempre que caminhava, revivia uma história perdida…

“Estava levando a menina para casa, parei na rua seguinte, aquele lance de beijos e amassos inocentes… E o carro embaçando o vidro. Mas qual a melhor parte? Vem um tiozinho e tropeça bem na frente do carro, pois estava tentando entender o que se passava ali dentro com a gente…”

Ele ria, e lembrava do sorriso da menina e da cena toda…

“Foi um assunto que manteve a amizade por meses… Foi ali, bem ali… Onde será que o tiozinho está?” continuou ele sozinho, pois era assim que revivia os momentos… Falando sozinho e sorrindo na rua.

“Certeza que alguém está me achando louco falando assim…” e ria mais ainda.

“Foi maio de 2012… Bom mês e boa saída também… Fomos naquele bar do canal 3 de esquina e depois a trouxe para casa. Quinta-feira à noite. Eu de folga, ela sem trabalho… E que fim levou hein?”

Após a lembrança, refazia seu caminho para casa… Era isso que o mantinha feliz. Não iria mandar uma mensagem ou procurar o contato perdido da menina. Não… Era apenas o fato de lembrar e de rir sozinho com suas histórias. Era isso que ele gostava.

Quase sempre, os caminhos os levavam para seu antigo endereço. Tinha certa inveja do prédio com portões novos e portaria nova. “Faria tudo para comprar de novo o apartamento…” pensava ele, mas nunca levou a sério. Era uma nostalgia inocente. Não seria a mesma coisa… As pessoas importantes e personagens das suas lembranças, já não moravam ali. As vidas já foram escritas e esquecidas… Algumas até nem vivem mais. Foram no seu devido tempo e nada mais – até concorda que nem foi o melhor momento da sua vida. Foi sua infância e adolescência. Toda inocência e romantismo da descoberta de uma vida que nunca foi tão séria.

Acha graça que cada vez que passa por ali, no 82 de esquina, lembra de uma parte diferente. Nunca a mesma. Nunca. Sempre uma coisa diferente. De uma brincadeira com os primeiros vizinhos. De uma loucura na adolescência. De uma pessoa, de outra, de uma bebedeira, de uma festa, de um jogo de futebol, de um pesadelo, de um beijo roubado, de uma carta de amor, de um assobio… E a lista nunca para…

Ele sempre gostou de andar. Era seu modo de lembrar. Era seu modo de se sentir vivo e ainda, mesmo que impossível, parte daquela história. Sempre que passava ali, lembrava de uma conversa que teve na sua primeira (de muitas) mudanças. Era um colega do primeiro ano de faculdade, que desistiu logo no ano seguinte, mas durante uma carona, em uma sexta-feira de inverno, ele fez um caminho para mostrar sua infância…

“Aqui era a escola, demolida… Ali, tinha uma vendinha que tinha as melhores balas… Fechou, abriu uma loja de roupa, fechou e nem sei mais que fim deu. Tá vendo aquele prédio? Era onde era a casa do meu avô com umas 4 casas além… Ele vendeu a preço de banana, se fosse hoje pedia um apartamento, né? Naquela época, nem isso…”

Sempre lembra dessa conversa e por isso que ele gosta de andar e lembrar das coisas. Ele tem um medo real de perder tudo isso… Tem medo porque, passo a passo, as suas memórias físicas vão sumindo. E ele, que está do outro lado do mundo, se assusta com as mudanças. Se assusta mais ainda com a possibilidade de perder tudo. De esquecer. De demolirem o exato local da sua lembrança e, depois de tantos anos sorrindo, ele não ter mais com o que falar sozinho– porque amanhã nada mais estará em pé por ali.

E é por isso, que ele gosta de caminhar sozinho, noite afora…