No fundo eu queria que fosse assim, ela disse no meio do seu último suspiro e se virando para se vestir…

“…No fundo eu queria ter errado comigo mesma por uma última satisfação contigo. Queria que fosse embora agora sentindo aquela culpa homérica de quem fez algo que jamais passaria pela cabeça. Queria amargurar essa culpa, mas ter a certeza que o tesão e a vontade foram maiores e eles guiaram absurdamente nossa vida – ou esse simples momento aqui. Seria o último mesmo. Não tem mais a razão e não tem mais o que acontecer de mais. As memórias existem e nunca serão apagadas, seu peso em minha vida e tudo o que vivemos juntos é uma parte tão importante, tão intacta e tão sensacional que eu nunca teria como negar ou me arrepender. Mesmo agora. Mesmo nesse erro… Enfim, estou feliz mesmo errando…”

Ela sorria no fim desse monólogo. Um sorriso de alívio com realização. Uma mistura que eu nunca consegui compreender ou mesmo decifrar. Fiquei olhando ela juntando as suas coisas em silêncio. A minha mão acariciando suas costas e coxas. Não disse nada, pois ela não queria nenhuma argumentação ou comentário… Era um desabafo de uma história que precisava ser encerrada. Mesmo com esse preço alto demais, como era no momento. Mas que pagaríamos, por conta da necessidade imposta da vida.

Ela me beijou pela última vez, um sorriso no rosto que mostrava um alívio enorme e no fim confessou “Agora eu sei o quanto é bom terminar as nossas histórias…” e se foi para sempre.