Se buscarmos a explicação de acaso, podemos encontrar que é algo que acontece sem motivo ou explicação aparente…
Seguimos nossa vida acreditando que as “coincidências” moldam muitos dos nossos acontecimentos e quando isso acontece, damos graças pela situação e seguimos a vida acreditando nisso. Eu fui (ou até mesmo sou) uma dessas pessoas que sempre acreditaram nos acasos aparentes que ocorrem em inúmeras situações da nossa vida. Até o Caminho me fazer perceber que estive todo esse tempo errado…
O Caminho te muda e te impacta de diversas maneiras, mas a maior delas sem dúvida foi ter respostas, encontrar soluções e até conhecer pessoas que me provaram que o acaso não existe e que tudo acontece no seu momento e com a razão certa para nos “salvar” ou “clarear” nossas dúvidas e temores. E talvez eu possa provar.
Poucas pessoas sabem que eu tive uma experiência profissional um tanto “confusa” em 2022. Eu recebi uma proposta de emprego que era muito melhor (financeira e profissional) da minha empresa atual. Fiz as entrevistas, me explicaram tudo, eu passei no processo depois de inúmeras semanas de espera e finalmente comecei no trabalho em setembro de 2022. Estava feliz da mudança e com energia renovada depois das férias de verão. Passada a primeira semana, eu não me sentia bem na empresa. O trabalho não me motivava. Eu não entendia muito bem as tarefas e a razão de termos que fazer daquele jeito. O sistema era muito confuso e os processos internos mais ainda. Fui me desmotivando cada vez mais e não conseguia encontrar uma razão… Saí da empresa em dezembro/2022 e tive a sorte (a qual agradeci muito durante o caminho) de conseguir retornar para a antiga empresa, em outro projeto e mantendo meu antigo salário.
Mas algo ficou na minha cabeça: aquele sentimento de não me encaixar em uma empresa era algo novo para mim. Algo que nunca havia experimentado em quase 20 anos de experiência profissional. Era difícil explicar a razão, mas eu simplesmente dizia “Eu não me encaixei na empresa” – sendo que não era verdade. Eu tinha certeza que havia algo a mais ali, só que eu não sabia a resposta naquele momento.
Estava em Grijó, uma cidade de Portugal com 12000 habitantes, que muitos peregrinos fazem de pernoite antes de chegar à Porto. Aquele dia eu tinha caminhado 33 quilômetros (foi a minha primeira etapa longa, na qual eu tinha o meu maior medo de “será que meu joelho vai aguentar?”), enfrentando chuva e subidas intermináveis. Após chega ao Albergue e tomar um merecido banho restaurador, conheci um rapaz e uma menina irlandeses que iriam dividir o quarto comigo. Me apresentei e conversamos sobre a Irlanda, no qual era um país que eu já tinha morado. Eles haviam acabado de chegar e estavam também ansiosos pelo banho. Antes de sair do quarto, o Peter (que era o nome do rapaz) vira e me pergunta “O que você faz da vida?” e foi a única pergunta profissional que me fizeram em todos os 16 dias de viagem. Nunca me perguntaram nada, mas ele me perguntou logo de cara. Ele me contou que trabalhou por 12 anos na empresa que eu tinha ficado 3 meses e havia “sido convidado a se retirar” em outubro do ano anterior. Ele era auditor financeiro e acabou descobrindo que a empresa estava financiando grupos terroristas na Rússia e Oriente Médio e que vários produtos sumiam da logística da empresa, mas eram ativados em cidades que esses grupos controlavam. Quando concluíram o trabalho/investigação e fizeram o relatório final, no dia seguinte, todos os registros, provas e dados que eles tinham coletados haviam sumido – em questão de horas. Obviamente que o ambiente ficou insuportável para ele e acabou “convidado” a sair da empresa…
Quando ele me contou, eu não conseguia segurar minha surpresa e ele concluiu com a frase: “não sei porque te perguntei isso, mas engraçado que era algo que eu precisava contar para alguém que tivesse trabalhado na mesma empresa. Coincidência não?” e eu respondi que sim, mas mal sabia o que estava por vir…
Alguns dias depois, enquanto estava rumo à Tamel, um outro rapaz cruza comigo no meio do dia. Seu nome é John, canadense, e estava fazendo o Caminho com seu filho Stephen de 17 anos. Como ele era mais velho e o filho caminhava muito mais rápido, ele começava mais cedo pela manhã e o filho o encontrava no meio do caminho, para terminarem a etapa juntos. Respondi que eu caminhava mais “cauteloso” (leia-se lento), por conta do meu joelho que não era tão perfeito e me dava um pouco de medo forçar sem razão aparente. Durante os menos de 10 minutos que compartilhamos o trecho (e sim, nunca caminhe com outras pessoas a não ser que tenham planejado isso antes! É ruim para os dois lados quando isso acontece), o John me perguntou a razão de eu estar fazendo o Caminho. Respondi sobre o agradecimento de tudo que havia me acontecido na vida e ele ficou chocado com a resposta. Suas exatas palavras foram: “Eu nunca tinha pensando em algo assim. Nunca damos valor suficiente às oportunidades que temos e aos aprendizados que ganhamos na vida. É muito nobre da sua parte fazer isso…”
John estava fazendo o Caminho porque havia perdido sua fé. Ele foi pastor protestante por 30 anos, recebia salário e a Igreja custeou sua vida durante todos esses anos. Ele explicou que a “instituição” estava mudando e que essas mudanças não faziam sentido para ele e ele não podia seguir naquele caminho… E assim, mudou de emprego e foi se afastando daquela “parte” de sua vida. Conversamos sobre isso e eu expliquei minha visão nada religiosa, mas espiritual, sobre o tema. Expliquei que a fé dele nunca se perdeu, porque ela moldou quem ele foi e era até aquele momento. Disse que não poderia uma instituição, que muda conforme humanos decidem o que é “melhor ou não”, ser a responsável por sua fé e dei um exemplo esdrúxulo, mas impactante, explicando meu ponto de vista. Quando concluí, John tinha os olhos mareados e me abraçou agradecendo as palavras e que ele jamais imaginaria encontrar algo assim no meio de uma caminhada matinal.
Como os ritmos de caminhada eram diferentes, nos despedimos e ele seguiu no seu ritmo acelerado. Não sem antes me prometer que estaríamos em Tamel naquela tarde e ele me pagaria algumas cervejas para agradecer as palavras e o incentivo do seu Caminho… Sorri entendendo que acaso não existia, mas eu não esperava que naquela noite iniciaria uma nova fase do meu Caminho e, pela primeira vez em dias, teria amigos me acompanhando nos próximos passos…
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