Justamente no terceiro dia de caminhada, eu digo que venci os últimos medos…
Tinha ficado em um albergue que era bem afastado do vilarejo, porém excelente em conforto e hospitalidade. O que no início eu apelidei de “Albergue Bruxa de Blair” – devido ao fato dele estar literalmente no meio do mato, isolado. Acabou se transformando em um capítulo completamente diferente no meu Caminho.
Por ele estar no meio do mato, ao lado de uma “cachoeira”, eu pude dormir com o som da água correndo “ao vivo”. Até hoje lembro que aquela noite representou o fim das minhas últimas aflições daquele início da jornada, me fazendo ter energia e força para continuar meus passos…
Coincidentemente ou não, aquele dia foi o primeiro que notei o que mais me relaxava na caminhada: o completo silêncio. Mas um silêncio difícil de explicar ou descrever. Era literalmente um silêncio real, no meio do caminho, que eu ansiava para percebê-lo e desfruta-lo de todas as maneiras. Como sempre programei minhas saídas antes do nascer do sol, pegava exatamente o limite entre o silêncio de todos os animais, com o fato do dia ainda não ter começado. Era algo palpável, presente e de uma paz tão “gritante” (perdão do trocadilho tosco), que eu apenas sorria e ficava contemplando aquele momento. E ao primeiro tímido raio de luz, os ruídos já começavam e aquele silêncio se quebrava com a harmonia da vida ao redor de mim ganhando terreno…
Ansiava pelo início da próxima etapa para conseguir ter aqueles minutos (ou as vezes horas) de completa paz e me sentir abraçado por aquele vazio tão assustador, mas que acalmava os meus pensamentos e corpo de uma maneira tão indescritível. Esse foi o primeiro choque do Caminho…
Outro choque que já era esperado, era perceber a harmonia entre as pessoas e situações que vivemos por ali. Seja por um espírito acolhedor tão ilusório nos dias atuais, seja pela atmosfera que existe por ali, fazendo todos se enxergarem iguais e onde os títulos e conquistas “do mundo real” simplesmente não fazem sentido serem mencionadas. É um pouco bizarro, mas conheci dezenas de pessoas e não sei o que fazem, no que trabalham, o que estudaram ou o que pensavam sobre assunto X, Y ou Z. Ali, não existia “pré-conceitos”, por eles simplesmente evaporarem no ar e tratamos (e conhecemos) todos simplesmente como peregrinos e que ajudamos (como eu fui ajudado) sem considerar nada além. Ali, nos alegrávamos pelas etapas vencidas das pessoas ao redor e compartilhávamos como havia sido nosso Caminho até aquele ponto – não importando se era o nosso 1º Caminho ou a 10ª vez que a pessoa passava por ali. Todos sempre fomos iguais…
Era como se fazendo o Caminho, o ego de cada um não iniciou a caminhada junto, mas ficou perdido lá atrás, em algum lugar que a gente mal lembrava. Era até emocionante vivenciar aquela paz (novamente essa sensação tão simples e poderosa) em poder sermos nós mesmos, olharmos pessoas que conhecemos há minutos antes e criar conexões e histórias sem mal saber de onde vieram. E no final das contas, nunca importou – e até hoje, isso não importa, mas infelizmente, estamos fadados a ter o Ego como companheiro constante entre nossos passos…
Esses dois principais choques me fizeram pensar e meditar sobre as importâncias de “coisas” que colocamos em nossas vidas. De planificações de objetivos, atitudes físicas, prioridades materiais e até relacionamentos… Tudo temos que mostrar, de alguma maneira, um passado ou “título” para que validem nossas ações. Como se fosse impossível, ou inadmissível, falar sobre tal situação sem a ter experimentado antes. Concluí que muitas vezes me calei por não me achar “experiente o suficiente” para comentar sobre tal situação ou o sabor de alguma coisa que tinha vivido em minha vida. E muitas vezes por orgulho, utilizava esse mesmo argumento, para tentar me destacar em alguma situação – o que não fazia o menor sentido.
Todos esses pontos foram fortalecidos pelo terceiro e maior choque do Caminho: A morte do acaso. Esse foi o principal motivo de eu entender que a jornada era muito mais impactante do que parecia e que NADA, simplesmente NADA, era fruto do acaso. Tudo ali foi colocado para explicar alguma coisa e que as pessoas que conhecemos, que conversamos, que ajudamos, que me ajudaram teriam alguma resposta para nossas mais profundas questões…
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