Os primeiros passos sempre são confusos. Você ainda não está acostumado com o peso da mochila, não sabe se usa ou não os bastões de caminhada e ainda não entende como pode prender melhor a lanterna…
Mesmo assim, entre a ansiedade e o medo, fui dando os primeiros passos rumo à Santiago de Compostela.
Deixei uma mochila antiga com algumas coisas supérfluas na porta de uma escola e segui em direção à saída de Coimbra. Quando cheguei ao “fim de Coimbra”, a olhei pela última vez, agradeci por tudo o que havia me ensinado e me ajudado naqueles poucos meses e disse finalmente: Adeus. Não fazia sentido seguir tendo um sentimento por algo tão antigo e que já não cabia nos dias atuais. Eu ainda não suspeitava, mas essa era a primeira lição que o Caminho me dava.
Me virei e segui tentando imaginar onde estariam as setas amarelas que me guiariam dali em diante. As setas amarelas são um capítulo um pouco confuso no Caminho Português. Muitas cidades simplesmente ignoram suas existências e não fazem nada para ajudar. Em outras, fazem questão de pintar em todos os lados e muros para facilitar (e acalmar) os peregrinos que passam por ali. Até Porto as setas são praticamente inexistentes e você precisa se guiar pela seta azul (a que leva para Fátima). Durante incontáveis vezes, quando me sentia perdido, olhava um poste ou muro para ver se tinha uma seta azul para o lado contrário. Se fosse o caso, eu estava na direção certa e assim continuava meu caminho.
Os primeiros dias são fáceis na sua simplicidade. Muito pela ansiedade e alegria de estar ali, como também no fato de ver que tudo “caminha” de uma maneira clara e serena. Os temores e medos de se perder, como seriam as noites nos albergues e se teria ou não algum problema para chegar no final da etapa, vão aos poucos sendo vencidos e começam a não preocupar mais. Mesmo assim, algumas dores começam a surgir – principalmente nos ombros e nas pernas. No meu caso, nada preocupante. Fiz todo o Caminho sem nenhuma dor absurda e também não tive nenhuma bolha nos pés, sendo que me considero um sortudo nesse quesito… Porém, pode passar e é importante saber quando a dor preocupa ou é apenas uma dor de “costume” …
No geral, segui a minha estratégia de maneira bem “coerente” e algo que não me fizesse sofrer para cumpri-la: levantar cedo e começar a etapa antes do dia clarear, não ter muitas paradas até parar na hora de almoçar, onde a etapa terminava. Em média, caminhava 7h por dia. Saindo dos albergues/pousadas às 5h30/6h, terminando o dia por volta da 13h. A ideia era relaxar também os pés, fazendo eles “respirarem livres” mais de 12h. Sim, esse ponto é crucial. Não calce nenhum tênis ou sapato fechado quando estiver no albergue ou na cidade de parada. Use chinelos ou sandálias, dando ar para o pé e descanso para ele não ficar preso no tênis (que por si só precisa ser resistente).
Quando comecei a entender que o Caminho também ajudava quem estava nele, larguei todos os medos para trás e segui desfrutando do que aquela experiência me proporcionava. Assim, tive a segunda grande mudança do Caminho: ansiar pelos momentos indescritíveis que aconteciam na caminhada. O mais próximo que posso chegar de alguma definição do que aquilo me causava eram “choques”, mas no sentido que tudo começava a fazer sentido e tinha uma limpeza física, mental e espiritual diária entre meus passos…
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