É o momento ideal de uma conjunção completa entre solidão e vida. É a certeza que não se está só, pois a escuridão não se completou ao redor…

E ali estava ele caminhando por ruas silenciosas e escuras. Ruas essas conhecidas e de lembranças fortes, intensas e barulhentas como o costume dos dias normais. E ali estava ele, no silêncio e na escuridão completa. Nem os pássaros mostravam o som, pois adormecidos pela hora elevada, não se assustavam ao movimento quase imperceptível abaixo. E ali estava ele, caminhando cadenciadamente e seguro de tudo o que passava. Ao seu redor o quase nada o abraçando e o frio implacável lhe fazendo companhia na fria brisa da madrugada. Os prédios ao redor estavam completamente mortos – sem luzes, sem movimento aparente e sem nenhuma janela aberta para a misteriosa noite. Era como se a vida estivesse em suspenso naquele momento.

Ele continuava seu caminho. Cruzava sinais proibidos e não respeitava nenhuma sinalização ou sinal vermelho para pedestre – Não haveria ninguém para o impedir ou multá-lo por aquilo. Sorria dessa “anarquia” infantil – pensando que era o único ser naquela cidade e que assim poderia fazer o que bem quisesse…

A madrugava o acompanhava ainda forte. Certeza que completaria todo o seu trajeto na escuridão da noite e demoraria mais de 2 horas até o sol vir iluminar e acordar aquela cidade que ele passava. Virou a esquina e se pegou de surpresa. Ali estava algo diferente do normal. Uma luz na varanda do sexto andar do prédio na próxima esquina. Brilhava forte como um sol, pois era a única luz aparentemente acessa naquela cidade. Ele tenta focar sua atenção durante um tempo, tentando enxergar algo além da luz acessa. Que segredos guarda aquele apartamento? Por quê tão cedo vivo? Está também começando o dia ou é o último suspiro de uma noite que terminou mais tarde que o desejado? É fruto de uma insônia corriqueira ou apenas uma emergência com aflição?

De repente surge uma mulher na varanda. Ajeita uma cadeira e se senta com algo nas mãos – provavelmente uma xícara de café ou chá. Parece respirar profundamente e contemplar aquela cidade que adormece silenciosa, mas que guarda tantas aflições e segredos nas suas ruelas sangrentas – que mesmo sendo trágicas, ela consegue se apaixonar cada vez mais…

Ela repara no estranho ser da sua rua. É a primeira vez que encontra alguém peregrinando por ali nessas horas. Suas roupas indicam que não é mais um embriagado da noite anterior, mas algo próximo a ela, que desperta antes mesmo do dia querer começar. Seu passo é seguro – certamente conhece todas as quadras seguintes e não perde tempo com checagem em GPS ou assim. Poderia ser um vizinho, mas algo em seu andar sugere a leveza de viajante. Como se fosse sempre de passagem – de muitos destinos, mas poucas raízes.

Ela tomou seu café e ficou observando o estranho caminhante no seu caminho habitual. Seguia sempre reto, claramente saltando os semáforos vermelhos porque não existiam carros ali – para que esperar o verde? Sorriu por imaginar quais outras leis, o estranho caminhante infringia na sua rotina e sentiu-se culpada por ela também não ser santa e ter umas tantas infrações nos seus pés…

Quando terminou sua xícara de café, o caminhante já havia girado na avenida seguinte e seguiu para seu destino sem olhar para trás – provavelmente sem a notar ali também. Ela pegou o seu caderno de anotações e rapidamente inspirou para inflar sua inspiração e criou quatro roteiros com o estranho caminhante daquele dia. Escreveu sobre suas aflições, medos. O colocou como parte naquela junção única de ruelas sangrentas, segredos pesados e aflições à flor da pele que ela tanto se maravilhava na cidade que adormecia a seus pés. O caminhante pulava entre sucumbir às tentações da carne, a se salvar de uma overdose barata no centro e até se apaixonar loucamente para uma deusa branca que aparecia no fim da madrugada e sumia durante todo o dia.

Ela escreveu até o sol começar a pintar o horizonte com sua aquarela de cor tão indescritível quanto singular. Ela se serviu de mais uma xícara de café e esperou até a cidade acordar de vez…

Ele virou a esquina na próxima avenida e se sentou num banco de uma praça deserta. Teria tempo até seu destino – e sorriu por não ter obrigações naquele momento. Já não enxergava a luz da varanda, mas pegou o seu caderno e começou a tecer todos os segredos da donzela que havia visto há poucos minutos. Suas facetas iam desde parte da misteriosa parte antiga da cidade que viviam, que transpirava platonismo, lágrimas e sangre. Outra como aflita de um amor perdido que a fez perder todas as esperanças no futuro e que agora só tem as poesias da madrugada para suprir sua ansiedade. A última, sendo a musa salvadora dele, que perdido em mil tentações, não conseguia enxergar que ela seria a resposta das suas perguntas e que selariam a sua eternidade naquele fim de noite sem testemunhas, mas que apenas os raros poderiam encontrar tamanha perfeição e intensidade…