Era a primeira vez em mais de uma década que ela voltava naquele bar. A atmosfera parecia ter mudado, mas tudo seguia do mesmo jeito de antes…

Ela foi sozinha para o bar, se sentou no balcão e pediu a mesma cerveja que tomou na sua última visita. Ainda não estava cheio, mas logo ficaria insuportável de se mover ali. Prometeu para si mesma que tomaria no máximo duas e iria embora. Era uma promessa fácil de cumprir, ainda mais para quem estava cansada da semana e precisava muito mais dormir do que se embriagar. Mas, ali estava ela…

Os olhos percorreram praticamente todos os cantos do bar. O longo balcão, o palco pequeno, as diversas decorações características – que ela jurava serem as mesmas e inclusive nunca deveriam ter sido limpas. As mesas no canto, o caminho para o banheiro. Pulou a parte que haviam duas máquinas de pinball enquanto tomou um longo gole da cerveja e tentou pensar a razão desses bares terem uma televisão ligada em canais diferentes, sem som. Lembrou que em alguns filmes que a pessoa no bar pedia ao garçom para aumentar o volume, por conta de alguma coisa importante passando naquele momento. Riu por pensar na possibilidade remota deles terem o controle ali… Coisas que só acontecem em filmes…

Não parecia perdida no ambiente. Seus olhos captavam todo o ambiente e a movimentação aumentando com o passar do tempo. Pediu outra cerveja e ficou olhando para as muitas garrafas de destilados, brilhando e convidando para um shot ou dois. Sorriu para si mesma da idiotice e de pensar que não tinha mais idade para aquilo. Logo quando chegou a cerveja e tomou um gole gelado ouviu um “Saúde…” ao seu lado. Era um jovem, devia ter uns oito anos a menos que ela. Cheirava a perfume forte e floral e sorria forçando uma simpatia que apenas dizia que queria beijar e transar em menos de duas horas. Ela sorriu, levantou o copo na sua direção e não disse absolutamente nada.

Tentou voltar a atenção aos seus pensamentos e o rapaz foi se apresentando. Se chamava Marcelo, se dizia com 25 anos e que era sua primeira vez ali com seus amigos. Perguntou se estava sozinha e se queria se juntar a eles. Viriam outras amigas deles também, assim poderiam se divertir em grupo. Ela sorriu novamente e ficou alguns segundos olhando aquela situação. Não era a primeira vez que acontecia. Normalmente ela se interessaria por conversar e conhecer gente nova. Mesmo sendo 10 anos mais novos, não teria porque não conhecer e se divertir com essa juventude. Mas ali, ela não se sentia nenhum pouco afim de conhecer gente. Não naquele bar. Não naquele dia em específico…

Na quase uma hora que havia passado desde sua chegada, ela tentou encontrar uma explicação para estar ali. Seu trabalho e sua casa estavam há quase 30 minutos dali. Então ela veio por vontade, porque nada justificava o tempo e a mudança de caminho para estar ali. Mas algo a fez, naquele exato dia, estar ali e vivenciar todos aqueles momentos. Era uma espécie de luto, mas sem razão. Era uma espécie de lembrança, mas totalmente fora de contexto. E não seria um Marcelo, seus amigos vestidos iguais e essa juventude transpirando testosterona e ejaculações rápidas, que a fariam mudar de ideia entre suas duas cervejas, seus fantasmas e sua confusão mental…

Ela agradeceu o convite e disse que já estava indo embora. Fez alguma piada com a sua idade e o fato dela ter que estar em casa logo, pois a energia já não era mais a mesma de quando tinha 25… Ele tentou insistir uma vez mais, mas ela negou. Pegou no seu braço com delicadeza e concluiu o seu pensamento…

Minha sina começou com um maldito beijo que saiu sem querer no canto desse bar. Justo ali naquela máquina de pinball. Antes era algo do Egito e tudo mais, devem ter mudado o tema, mas foi ali. O beijo foi o mais forte, mais surreal e que me completou desde o primeiro toque. Talvez eu quisesse que esse bar explodisse, sem sobrar nada. Mas outra parte de mim veio até aqui hoje para que eu relembrasse de cada momento. De como aquilo mexeu com cada parte do meu corpo e da minha vida. Então eu talvez precise que esse lugar exista, para que seja um ponto que eu volte e relembre de tudo. Mas, é a minha sina. E é real. Eu quis que todos os outros caras da minha vida fossem como ele. E nunca foram. Jamais seriam. Eu buscava algo próximo daquilo. Uma vez mais. Para que não eu pudesse ter a chance de não largar nunca mais. Como se fosse uma mensagem divina me dizendo “Pronto. Aqui tens tua perfeição novamente.”… Mas não! Nada chegou próximo. Seria ridículo pensar que alguém tenha conseguido mexer comigo como antes. Não. Era tudo perfeito. Sorriso. Perfume. Pegada. Beijo. Intensidade. Linhas do rosto. Do corpo. O ritmo do sexo. O jeito que ele gozava. O jeito que eu gozava. As entregas. As aflições…

Ela deu o último gole da cerveja. Entregou o copo e se levantou para ir embora.

Ele morreu. E eu deveria ter morrido junto. Ou quem sabe eu morri também, mas em outra dimensão que ele não está. E quando ele morreu, ele levou tudo com ele. E eu fiquei mentindo para mim mesma, pensando “era só um cara, tem que existir outro igual e melhor…” e não existe. A perfeição não existe. Ela morreu há exatos 9 anos. Hoje é aniversário dessa morte. E minha sina é apenas lembrar… Entende isso Marcelo? Ou talvez não. Mas não importa… Muito obrigado por ouvir. Tchau. Divirta-se…

Então ela se foi. Foi sem chorar. Não tinha mais para que e nem para quem chorar…