Ela se levantou e foi ao banheiro pela primeira vez. Eu fiquei ali, sozinho na mesa e avesso a tudo que estava ao redor…

Talvez tenha sido a primeira vez que me perguntei o que eu fazia ali. E perguntei isso quando vi o desenho na parede do bar. Era algo próximo à um boneco feliz – porque tinha o sorriso característico de desenhos de palito – e ele fazia o sinal 1 com uma mão e levava como se fosse um carrinho de construção na outra. Fiquei me perguntando o que aquilo significava em um bar que era uma mistura completa entre algo “tradicional” – as aspas são porque nada ali era tradicional – e a tendência que todos os bares da moda levavam. Com isso eu incluo cores, desenhos numa parede que era feita de lousa, comida oriental, mexicana e uma música que eu jamais tinha ouvido na minha vida, mas tinha certeza que era o que os jovens ouviam agora. Entenderam o cenário?

Sim, era nosso primeiro encontro oficial. Os outros foram esbarrões entre conhecidos e acabou tendo uma química entre sorrisos e palavras totalmente aleatórias que jamais poderiam ser enquadradas em conversa. Daí eu peguei o contato dela e começamos a conversar normalmente (ou próximo disso) e uma coisa levou a outra. E ali estava eu, longe de casa, em um bairro que desconhecia completamente e tentando ainda entender o desenho na parede.

Não que aquele encontro estava ruim, o problema é que eu não tinha me preparado para o que aconteceu. Começamos uma conversa sobre futilidades e, entre uma piada e outra, entramos no assunto de política e aí a conversa ficou séria. Ainda bem que os “lados” eram os mesmos, logo não houve nenhuma briga ou discussão mais pesada, mas a conversa foi mais séria do que eu realmente esperava. E isso cansa. Por um lado, você entende que a pessoa é forte argumentadora, tem uma opinião bem formada e consegue até perceber certa visão de mundo, tendências e até inteligência para distinguir argumentos rasos. É bom que você também consegue se comunicar e mostrar para a outra pessoa que não é mais um cara raso no meio de tantos por aí. O problema é que para primeiro encontro, você até quer ser o cara raso para que as coisas fluam de uma maneira mais satisfatória. Você quer uma piada sem sentido em um momento, para que abra espaço para uma ironia e conseguir arrancar um sorriso e até mesmo algo mais daquele momento. Então eu estava pensando se o encontro estava sendo legal ou não…

E que cheiro era aquele? Olhei um pouco assustado para o lado, porque haviam dois caras na mesa, um deles fumava e por alguma razão era o mesmo cheiro do cigarro da ex. Sim, cigarros fedem igual, mas por algum motivo o dela era diferente. Na bem da verdade ela não era minha ex, até porque a gente nunca tinha oficializado nada. Éramos os eternos amantes que se viam, sorriam, ficavam, dormiam juntos e por alguma razão o dia seguinte era melhor. Esqueci de contar as noites que ela estava em casa, tomando vodca às 3h da manhã e fumando na varanda quando eu apenas queria dormir. Ela tinha essa tendência maluca de beber até de madrugada para acordar no dia seguinte não tão tarde e transar como se a vida dependesse daquela urgência. E o mais absurdo é que ela acordava tão plena e sem gosto nenhum de cigarro ou de bebida que eu duvidava se ela fumava e bebia…

E eu ali naquele bar lembrando disso.

Talvez eu tivesse lembrado tão absurdo dela assim, porque era tão diferente. Não conseguia dizer também quanto tempo saímos. Talvez 2 anos? Talvez 3? Não lembro. Não era rotineiro, mas acontecia quase sempre. Ou sempre? Enfim… O fato é que nesse tempo todo, lembro que conversamos sério umas dezenas de vezes, mas nunca em um bar. Nunca na frente de outras pessoas e sim na “privacidade” do mundo que criávamos. E obviamente que nunca falamos sobre política. Talvez eu soubesse a opinião dela e ela a minha e talvez os dois estivessem errados, mas isso era algo que não afetava nossa relação. E eu me perguntei a razão dessa menina agora precisar falar sobre isso com alguém que ela mal conhecia. Que necessidade louca seria essa?

Eu terminei minha terceira cerveja e já era o bastante para a noite. Era melhor relaxar e pedir uma água para hidratar o corpo já cansado de tanto argumentar.

Quando ela voltou do banheiro – eu não poderia dizer se haviam passado 2 ou 20 minutos – eu perguntei:

“Me ajuda em uma coisa aqui. O que aquilo ali parece para você?”
“Um entregador de bebida”
“Sério? Por quê?”
“Ué, por qual razão teria ele está puxando um carro numa mão, fazendo o símbolo da cerveja, na parede de um bar?”
“Bem pontuado. O problema é que o bar é patrocinado pela concorrente…”
“Hmmm, verdade. Então não sei. Podemos perguntar para o garçom…”
“Acho que consigo viver minha vida sem essa resposta…”

Ela sorriu e chegou mais perto. Era inevitável, mas por alguma razão eu ainda estava ali…