Era nítido que ele esperava alguém no bar porque recusou o garçom quando perguntou se iria beber alguma coisa…
Havia se mudado pouco para ali. Buscava uma mudança drástica de seus fracassos na sua terra natal e decidiu ir para onde era sempre verão – mesmo que ele estivesse usando uma jaqueta e vestindo mangas largas… “Ao menos não tem neve” pensava todos os dias que abria a janela do seu apartamento e um vento frio brindava a sua cara nesses meses de inverno.
Não falava a língua local e não se esforçava muito para aprender também. Trabalhava remotamente e seu idioma, internacionalmente aceito, era o suficiente para pagar as contas e se comunicar o necessário. Ainda assim, evitava lugares muito tradicionais, pois sabia que teria dificuldades e poderia acontecer algum problema – como já havia acontecido de cobrarem mais na conta, incluindo itens que não havia pedido… Essas horas a discussão era interminável e nunca proveitosa. Logo, escolhia lugares mais modernos e com gente de todos os cantos – nessa multidão anônima, era mais seguro.
Havia conhecido essa garota nos Tinders da vida – não lembrava qual aplicativo exatamento, pois estava nos quatro principais, sempre descolando um encontro aqui, outro ali para se manter socialmente ativo. Ela não escrevia muito bem, provavelmente usando algum tipo tradutor, mas parecia divertida e sempre de alto astral. Ela estava atrasada para o primeiro encontro, mas ele ainda não se preocupava com isso. “Melhor se atrasar, do que dar um cano completo e não aparecer…” pensou ele enquanto mexia no celular, sem saber o que buscar. Cerca de quinze minutos depois, ela aparece no bar e logo se reconhecem. Se cumprimentam com um abraço simples e vão pedir suas bebidas e comidas no bar.
Ela estava nitidamente tímida e se esforçando para se comunicar da melhor maneira possível. E, para evitar qualquer complicação, pede para ele escolher a comida e vai no único tipo de cerveja que conhece, mesmo o cardápio tendo mais de 20 tipos diferentes…
Retornam para a mesa e ela logo tenta se desculpar antecipadamente de não saber falar fluentemente o idioma dele. Ele sorri e diz que a compreende perfeitamente e se desculpa também por não falar o idioma local. Eles riem e chegam a um “empate técnico” pela situação criada.
A conversa gira em torno de se conhecerem melhor e situações engraçadas que cada um já presenciou ou viveu, o banal e inocente primeiro encontro básico de toda relação que existe para um propósito curto. Ele quer se sentir menos sozinho. Ela quer uma história e algo mais, se der vontade. E assim seguem por pouco mais de uma hora.
Por estarem em um lugar completamente heterogêneo, se mesclam com o restante das pessoas – um mix entre casais, amigos de trabalho, de escola ou simplesmente desconhecidos se divertindo… Ninguém nota ninguém e todos se sentem mais à vontade assim.
A comida chegou e, para enorme surpresa dela, ele havia pedido uma porção gigante de asa de frango – justo a parte do frango que ela mais detestava. Ele vai para a segunda cerveja, enquanto a dela ainda não chegou na metade. Ela tentava escolher a melhor asa de frango, enquanto ele comia a que estivesse mais próximo. A segunda cerveja evapora e ele faz uma piada que ela não consegue entender…
Uma hora se passa, quatro cervejas para ele e apenas uma para ela. Ela comeu apenas uma asa de frango, pois já estava cansada mentalmente de todo o esforço de falar outro idioma e jogar aquele jogo que estava demorando demais. Cansada, ela começa a mesclar as frases nos dois idiomas e ele no princípio acha engraçado, mas depois não consegue mais entender nada e apenas sorri enquanto termina sua cerveja.
Ele vai ao banheiro e ela se refugia no celular, enviando mensagens para suas amigas relatando o ocorrido. Suas amigas estão no bar da esquina e dizem que está divertido e com vários caras gatos por ali. Ela se anima com a ideia. Ele volta do banheiro pronto para uma próxima cerveja, mas ela dá uma desculpa que precisa ir por conta do cansaço e da semana pesada que estava terminando…
Ele fica sem graça, desiste da cerveja e se apronta para ir embora. Quando chegam na porta do bar, ele oferece uma carona para ela que recusa, mentindo que de metro é mais fácil para ela e não quer dar trabalho. Ele insiste um pouco e ela o beija ali na porta mesmo. De novo, ninguém parece notar nos dois se beijando bem ali na frente…
Os dois sorriem e se despedem com um beijo menos intenso, mas ainda assim bom. Ela finge que vai para o metro, ele vai para a outra esquina…
Já fora de vista um do outro, ela atravessa a rua para encontrar suas amigas. Ele verifica as mensagens do celular e segue para outro bar que a garota do Tinder da semana passada estava…
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