Se alguém o visse caminhando por aquelas ruas, diria que ele vivia por ali. Caminhava sem dúvida, sabendo onde ia e o que buscava nos seus passos…
Não seria de toda mentira. Ele já havia morado naquela cidade e conhecia bem as cicatrizes daquelas ruelas que caminhava no início da manhã. Foram poucos meses vivendo ali, mas o necessário para que pudesse caminhar sem se perder por aquele centro que o cativou logo nos primeiros dias. Ele refazia os caminhos básicos e, sem se perder, acabou passando sem dificuldade por todos os locais que se lembrava dali. Estranhamente tudo estava exatamente igual. Parecia que a cidade tinha parado no tempo e os anos que passou sem voltar, não correram da maneira normal…
Ele nutria um carinho por aquela cidade de interior que tanto fez por sua vida em pouco tempo. Mesmo sem conhecer ninguém, pode iniciar uma série de passos e planos que tinha desde décadas antes. Sua cara não era conhecida. Não havia amigos por ali. Não havia uma única pessoa que soubesse seu nome ou esperasse uma visita ou retorno. Ele era um estranho, mas sem parecer perdido.
Subiu as escadarias do centro da cidade sem dificuldade e virou logo a esquerda, refazendo um “atalho” que sempre gostava de fazer nos finais de semana… O bar continuava ali, intacto como todo o resto. O mesmo garçom, esse sim mais velho que suas lembranças, veio anotar seu pedido, sem mirar o rosto, e limpando a parte do balcão que estava sentado. Antigamente, entre uma conversa e outra, sempre falavam de uma partida de futebol ou de alguma lambança de políticos e caos econômico – a típica conversa informal que não acrescenta nada, mas que diz muito sobre sua presença no local. Hoje, a cerveja veio normal e sem nenhum outro comentário. Ele tomou o seu copo sorrindo – definitivamente era um desconhecido ali.
Ele não tinha pressa ou preocupações com o tempo. Literalmente nada o importava. Caminhava sem pretensão ou pressa. Apenas saboreando as lembranças que ele tanto cultivou e estavam perdidas em sua memória.
Já passava da hora do almoço e seus passos o levavam ao restaurante que ele mais frequentou quando esteve por ali. Era um restaurante pequeno e não familiar. Daqueles simples, mas que faziam uma comida com preço justo e saborosa. Quase todos os domingos refazia quase o mesmo caminho para chegar e disfrutava de uma refeição que sempre o surpreendia. Ao entrar no lugar, a campainha do “alarme” soou e ele pode ver que todas as mesas estavam vazias. O cheiro forte de madeira, vindo das mesas e paredes, o invadiu e ele sorriu porque era exatamente esse o cheiro que o lugar brotava em suas lembranças…
“Um minuto e já vou…” gritou uma voz vindo da cozinha. E ele se sentou em uma das mesas pequenas, virado para a porta e aguardou. Poucos segundos depois uma garçonete veio atender seu pedido. Sorria sem expressão, mas seu olhar parecia que faiscava algum resquício de memória. Ela deixou o cardápio e saiu para pegar o couvert com pão, azeitonas e um pouco de manteiga. Ele olhou o cardápio e tudo estava igual – talvez os preços haviam subido um pouco, mas sua memória o dizia que estava tudo igual.
Ele fez o pedido e a garçonete ainda o olhava com certa inquietude…
“Acho que é tudo… Ana, é verdade?” – disse ele afinal.
“Sim…” respondeu ela sem demonstrar nenhuma outra emoção.
“Obrigado…”
“Está de volta ou apenas passagem?” respondeu ela olhando para o bloco que havia anotado o pedido
“Passagem”
“Como sempre…”
“Sim. Como vão as coisas por aqui?”
“Tudo igual. Igual como sempre. Igual como antes. Igual como talvez você tenha vivido…”
“Sim. Consegui notar…”
“Pois… Desculpe. Não lembro o que você costumava beber por aqui…”
“Hoje o dia está pedindo um vinho. Pode escolher você. Uma garrafa.”
“Eu iria pelo da casa, como sempre…”
“Então, sem mudanças” disse ele afinal sorrindo pelo desfecho e ela saiu sem mais nenhum comentário.
A comida estava excelente e ele teve a sensação que poderia viver por ali para sempre, comendo a mesma coisa todos os dias sem enjoar. O vinho estava OK, mas fez o seu trabalho de relaxar um corpo e mente que já queriam mostrar sinais de cansaço. Ele pagou a conta e se despediu com um “Até um dia” que foi recebido com um sorriso neutro de quem já está acostumada com a volatilidade da vida.
Dali partiu para a estação de trem e olhou os horários. Comprou um trem para a capital 15 minutos antes do horário previsto. Quando entrou na estação e foi até a plataforma, recebeu o aviso no mostrador que o trem estava atrasado 15 minutos. Sorriu, pela última vez, porque todas as cinco vezes que precisou pegar o trem ali, todos estavam atrasados. Até nisso aquela cidade não mudava. E ele tinha certeza que nunca mudaria…
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