Era um feriado diferente para mim. Mesmo sem os amigos de sempre, decidi ficar sozinho na minha cidade natal. Era um momento de descanso…
Não lembro bem se era uma sexta ou sábado, mas decidi ir ver o movimento e me sentei no boteco de esquina. Conhecia o filho do dono, pois aquele boteco já havia sido o meu preferido. “Bons tempos que os preços ajudavam…” pensei e lembrei que esse foi o principal motivo de pararmos de ir ali. “Virou preço de Campinas porra…” eu esbravejava – mas logo percebi que todos os outros bares seguiriam o mesmo movimento e aumentaram por igual. Mas, como sempre, a vida seguiu e retornei poucas vezes ali, até aquele dia.
Era um bar de esquina clássico e eu me sentei numa mesa onde poderia ver, sem muito esforço, todo o movimento dos dois cruzamentos. Pedi meu lanche e enquanto aguardava ela entrou no bar. Ambos ficamos surpresos com a coincidência, pois faziam bons anos que não nos víamos e muito menos sabíamos como andava a vida do outro…
“Paula…”
“Matheus… Ora ora…”
Eu sempre brinquei que poderíamos saber o rumo da conversa apenas vendo o jeito que a saudação era dada. Naquela hora percebi que não havia perigo rondando, apesar do tom sério da sua voz.
“Quanto tempo hein? Está morando onde?” Ela perguntou…
“Campinas, ainda… Agora, quanto tempo mesmo. Não sei nem falar…”
“2004, talvez?”
“Nem ideia, vou lembrar depois hahaha…”
“Eu sei que vai.” Disse ela sem sorrir – talvez um sinal de perigo.
Alguns segundos passaram com silêncio meio pesado e tentei quebrar esse clima estranho…
“Está sozinha? Quer sentar, peço um copo para você… Ainda bebe? Me acompanha?”
“Eu vim pegar um lanche aqui, moro aqui na rua do lado… Acabei de sair da pós, muito trabalho… Talvez beba enquanto espero meu lanche. Você está aqui sozinho? Bebendo sozinho aqui?”
“Sim… Estava cansado de ficar em casa e resolvi passar aqui. Vim sozinho e praticamente todo mundo tem algo para fazer hoje – formatura, casamento… Então, também estou esperando para comer. Senta…”
E ela sentou, não se importando de mostrar o quão estranha era a situação.
Paula foi a primeira menina que disse que me amava. Isso pode soar estranho e infantil, mas ela sempre tinha sido esse tipo de pessoa. Séria, centrada e alguém que eu sabia que não mente ou disfarça sentimento. Ela era um ano mais velha que eu e isso parecia um mundo de diferença na época. Ficamos um pouco depois de eu me mudar para Campinas. Ela já fazia faculdade em Santos e eu tinha acabado de arrumar meu primeiro emprego. Eram tempos de descobertas e novas rotinas para mim – foi esse o principal, mas não o único, motivo para não ter dado certo.
“Então… Que curso está fazendo de pós?”
“Gerenciamento de Projeto… Estou trabalhando em São Paulo nessa área, acho bem interessante…”
“Legal… Também estou nessa. Mas não cheguei ainda a fazer pós, quero ver se é algo que me encaixe antes.”
“Eu gosto bastante. Dor de cabeça né? Mas a gente vai se acostumando…”
“Bastante.”
“E não saiu mais de Campinas?”
“Morei no Rio, depois voltei, depois fui para São Paulo e agora voltei…”
“Tu sempre em movimento. Não mudou nada…”
“Eu acho que nasci para isso mesmo, né?”
“Pode ser…”
Ela fez o pedido para a garçonete. Frisou que era para viagem. A garçonete me olhou e eu pedi para trazer o meu junto se possível, porque aí comeria quando ela fosse embora.
“Já vi as pessoas irem no cinema, viajar… Mas no bar, confesso que é um pouco assustador, Matheus!”
“Não venho com frequência. Juro! A chuva acabou dando uma trégua e eu resolvi vim ver o movimento e relaxar um pouco… Melhor um lanche aqui, do que pedir pizza em casa né?”
“Pode ser. Ponto interessante…”
“Mas não sou viciado ou não fico tremendo por álcool. Eu juro!”
“OK… Levarei em consideração.”
“E a sua vida?”
“O que quer saber?”
“Nada de mais. Apenas puxando assunto.”
“Ah sim… Só para saber se era algo específico… Mas… Estou solteira, sim ainda sigo o mesmo jeito de pensar de antes e isso afasta um pouco, mas namorei por 6 anos e vi que mesmo sendo esse tipo de gente, a gente pode se perder e se desgastar com quem a gente gosta. Agora estou focando no trabalho. Estou numa posição boa e ganhando bem. Então vou terminar a pós no meio do ano e depois eu tento ver o que fazer. A empresa tem escritórios no Canadá, fui para lá ano passado e esse fim de ano meu gerente vai ser transferido. Quem sabe… Do resto, meus pais estão bem. Meu irmão já é pai, logo fiquei para tia. E estou na eterna briga entre idade, cabelos brancos e tentar uma dieta para balancear a falta de academia.”
“Eu nem vou tentar resumir do mesmo jeito… Não iria conseguir. Resta falar que ainda estou solteiro, mas com algumas diferenças básicas entre 2004 ou o ano que for para agora. E não sei se é para bom ou para mal… Mas enfim, não é um xaveco ou convite também. Fique tranquila. Com essas mudanças de emprego e afins, vivi muita coisa – um mundo de extremos que moldaram muitas mudanças de atitudes e pensamentos. Comprei um apartamento lá em Campinas e estou naquelas de juntar dinheiro para a próxima mudança da vida, mas nem pergunte qual será – porque eu não sei ainda.”
“Está mais sonhador?”
“Não, muito pelo contrário… Pé no chão total, de verdade”
“Bom para você. Não daria para prever isso mesmo.”
“É… Ah, a Mika morreu…”
“Putz…”
“Pois é…”
“Isso deve ter feito você mudar também.”
“Com certeza…”
“Que dia foi?”
“5 de fevereiro de 2014…”
“O quanto te inferniza isso ainda?”
“O suficiente…”
“Eu sei.”
E eu não sei porque falei da Mika, apenas saiu… A Paula sabia o quanto eu amava a Mika. E essa notícia deixou a gente em completo silêncio por alguns minutos. Dois ou três copos, não percebia muita coisa naquele momento. Eu desviava o olhar e ela olhava para o chão. Era uma situação estranha.
“Nunca namorou Matheus?” Talvez com essa pergunta eu tenha me arrependido do convite para ela se sentar comigo, eu sabia que ainda havia mágoa ali.
“Uma vez e meia, se posso dizer…”
“Amou?”
“Sim…”
“Certeza?”
“Sim.”
“Foi correspondido?”
“Na medida até do impossível…”
Os lanches chegaram. O dela embalado. O meu no prato para comer ali… Eu pedi mais uma cerveja e a Paula não se mexia, como se estudando o que falar no fim.
“Eu nunca senti por ninguém o que eu senti por você. Eu tinha 23 anos, era ridículo até certo ponto, mas hoje eu vejo que era forte. Não sei se você fez certo… Não sei se eu fiz o certo! Mas sabe o que é mais complexo? O teu sorriso ainda é lindo! Você poderia estar disfarçado aqui ou na China, mas essa porra de sorriso estaria aí e eu saberia que seria você. Você mudou. É fácil perceber no seu jeito de falar e até de não contar as coisas. Mas ainda sei que é o mesmo menino que não quer se envolver com ninguém até achar a terra firme nos seus sonhos. Até ter a certeza da manhã seguinte e saber o jeito que os dias vão iniciar e acabar. Cuidado Matheus… Talvez isso não seja um objetivo, mas sim uma fuga. Pode ser que você esteja nadando e não vai ter nenhuma terra firme no futuro, mas as vezes saber boiar é mais importante do que saber o que vem a seguir. Te devo algo?”
“Claro que não…”
“Obrigado pela companhia. Boa noite…”
“Foi em julho de 2005.”
“Eu sabia que você ia lembrar… 10 anos.”
“É…”
E ela se levantou e foi embora. Não nos abraçamos ou trocamos telefones. A cerveja chegou, a garçonete ficou com cara de interrogação e eu respondi tentando rir…
“Sabe aquele momento que você apenas precisa deixar as pessoas desabafarem o que estava guardado há 10 anos? Foi isso…” E ela me deixou ali sozinho.
No meio do meu lanche, lembrei da última frase que a Paula me disse antes de sair do meu carro naquela noite de inverno: “Você sempre lembra de tudo, mas um dia a vida vai te cobrar das suas ações e você só terá lembranças…”
Ela estava certa afinal, pois estou aqui hoje escrevendo sobre as lembranças – que foi tudo o que restou daquele tempo…
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