O reflexo do seu rosto no vidro da loja de bebida evidenciava toda uma teia de acontecimentos anteriores…

Há algum tempo que tinha adquirido o estranho hábito de beber quando a insônia aparecia. Diziam que era ansiedade. Diziam também que o melhor remédio para ansiedade, era uma taça de vinho após o jantar. Ela nunca tinha entendido muito de vinho, mas tentou provar daquele remédio que todos falavam com propriedade.

No início funcionou como mágica. A taça nem estava cheia e já no final ela ria das suas angústias internas e caía em um sono pesado e vazio de pesadelos. O problema era que essa insônia ou ansiedade, como for o nome mais palpável, era um pouco mais extensa e profunda. Logo a taça precisou ser mais cheia. Logo eram necessárias duas. Depois três. E quando já estava tomando uma garrafa por noite, pensou que o salário seria melhor gasto em bebidas mais fortes. Sempre havia gostado de vodca e agora sempre a tinha em mão.

E ali estava ela, mais um mês de salário no banco, e mais uma visita à loja de bebidas de seu bairro para olhar promoções e repor seu estoque medicinal alternativo.

As olheiras eram profundas e ela já tinha que dobrar a quantidade de base para escondê-las no seu trabalho e dia a dia. Havia algo obscuro no olhar que passava de preço a preço, de marca a marca e em cada sessão. O tremor em sua mão direita, que antes era praticamente imperceptível, agora era corriqueiro. Ela sentia vergonha do seu estado e sempre andava com ela meio escondida – deixando a esquerda à mostra e mais ativa normalmente.

Era difícil saber quando tudo começou. Qual foi o estopim que a levou para esse abismo profundo que deteriorava seu corpo, sua mente e sua vida, pouco a pouco.

Seria algo mais sério, alguma amiga havia tentado ajudar. Mas ela ignorava as tentativas com seu orgulho venenoso e ao chegar em casa, tirar o sapato e a roupa do trabalho, se jogava no sofá, abria sua garrafa de vinho, servia uma dose da vodca fria do congelador e ficava encarando as paredes do seu Studio, seminua e tentando desvencilhar todos os pensamentos pesados que logo chegariam e a deixariam mais angustiada.

“Melhor ficar bêbada antes que comece a pensar demais…” – era o que ela falava em alto e bom som para as paredes que a assistiam todas as noites. E isso era apenas uma terça-feira comum em sua nova vida que ela nem sabia que tinha pedido…