Ela gostava de desenhar e de fazer sanduíches nos fins de semana. Mas acho melhor contar como soube disso tudo…

Ela sempre fazia o mesmo caminho e nunca se cansava disso. Certo dia, se pegou explicando isso em uma conversa com a senhora da banca. “Todos nós mudamos e mesmo que façamos as mesmas coisas todos os dias, sempre tem uma mudança mínima… A rua, a cidade, o mundo é assim. Nunca igual” e riam depois de perceber que ela tinha poesia nas suas palavras.

O seu caminhar era leve e de prazer. Como se fosse sempre admirando as pinturas, as rachaduras na parede, a calçada irregular e as roupas no varal. Ela sempre sorria quando estava com alguém, mas lutava para sustentar o sorriso durante o silêncio solitário. Isso me deixava inquieto para descobrir o que havia por trás daquilo. Algo sério? Algo simples? Um amor perdido? Um sonho não realizado? Uma angústia? Depressão?

Éramos vizinhos de prédio. A sua janela era o oposto da minha, então não nos cruzávamos na varanda, mas nos horários de saída e chegada. Sempre nos cumprimentávamos com os banais “bom dia” ou “bom fim de semana”, nada além disso…

Certo dia eu voltava do trabalho e a vi quatro quadras antes com sacolas de mercado. Pareciam pesadas, pois havia esforço nos seus braços magros. Apressei o passo e a chamei. Ela estava sem o sorriso no rosto, mas logo depois ele apareceu e se sustentou pelo tempo normal. Ofereci ajuda e ela logo me agradeceu…

“O único problema desse bairro é que os mercados são um tanto longe, né?” comecei um assunto aleatório para nos acompanhar no caminho…

“Sim… E a esperta aqui deixou tudo para a última hora, não tenho nada em casa e não posso morrer de fome, certo?”

“Opa! Essa é a parte boa de ser gordinho, nunca deixo faltar comida. É meu ar…”

“Eu também, mas ultimamente deixei passar…”

“Matheus… Prazer…”

“Júlia. Prazer, vizinho!”

E a conversa foi se esvaziando nas poucas quadras restantes. Quando chegamos ao seu prédio, já estávamos em silêncio. Ela ainda sorria, quando abriu a porta.

“Você bebe vinho?”

“Sim… No frio faz bem para a saúde.”

“Comprei esse aqui, conhece?”

“Tenho o tinto desse em casa, mas ainda não provei… Está em casa aguardando…”

“Hmmm…”.

“Devo beber ele amanhã, se você quiser podemos fazer a prova.”

“Eu aguento bem vinho, você vai me chamar de louca.”

“Tem mais vinho em casa e você não vai precisar dirigir depois…”

“Ok! Tinto para entrada. Branco para o prato principal. Mas prefiro aqui, por favor…”

“Sem problemas, eu pego um Uber.”

E ela riu alto com o comentário.

“19h?”

“19h.”

E foi assim que a história começou…