A noite foi terminar quase duas da manhã e paramos na quarta garrafa. Ela não queria que eu fosse, mas era necessário…

Almoçamos na minha casa, jantamos na dela. E esse roteiro seguiu-se por duas semanas. Evitamos os dias de semana, por conta de trabalho e rotina, mas de sexta até domingo éramos a companhia de um e outro. No segundo sábado ela insistiu para eu dormir e eu não consegui resistir com a vontade que ambos estávamos. Acordei cerca de 5 minutos antes dela e a fiquei observando ali, com a respiração ainda pesada, mas com uma feição feliz. Difícil explicar, mas fácil perceber…

Sorri sem motivo nesse momento e um pouco depois ela abriu os olhos. Tentei disfarçar o riso e ela soltou uma risada.

“Obrigada Má…”

“Pelo o quê?”

“Pelas noites, pelos almoços, pelas risadas. É bom sentir algo de verdade e consigo perceber que tudo que a gente passou nesses fins de semana, foi leve e real. Sem fingimentos ou joguinhos para transarmos. Obrigada”

Eu ainda sorria e ela me beijou. Transamos mais uma vez sem pressa. E o relógio não marcava 9h…

“Tenho uma mania e você vai ter que entender isso…” disse ela após o beijo

“Oi?”

“Vai tomar banho que vou fazer o café…”

“Nada… Te ajudo poxa.”

“Fica tranquilo… É minha terapia de fim de semana. Você vai perceber.”

Tomei um banho rápido e ela ouvia uma playlist acústica enquanto montava um sanduíche. Era um misto quente incrementado, mas o cuidado e a atenção com os detalhes, fizeram aquele ser o melhor misto que já havia comido.

“Gosto dos fins de semana em casa por conta disso. Consigo montar um sanduíche e meditar ao mesmo tempo… É minha fuga”

“Tá maravilhoso… Mas, fuga? Algo sério?”

“Do mundo. Da falsidade de sempre… Mas hoje estou mais feliz que o normal. Obrigada, de novo”

“E qual outro hobby terapêutico você tem?”

“Te mostro…”

Ela abriu seu caderno de desenho. Ela retratava o mundo de uma forma tão singular, com um risco tão firme e preciso que era notório entender a razão dela olhar admirando todos os detalhes da sua rotina. A velha da banca, as roupas no varal, os prédios antigos, o reflexo das casas na rua após a chuva. Tudo estava ali.

Enquanto eu via o caderno, ela pegou uma folha solta e me mostrou.

“Você sabia me observar, mas eu também te via sempre de um jeito diferente…”

Ali na folha, estava eu desenhado com uma garrafa na mão e uma flor na outra. Ela estava no desenho também, em pé na varanda, acenando para mim…

Eu tentava seguir todos os detalhes e no fim ela falou:

“Sim, eu desenhei um pouco antes de você vir aqui pela primeira vez. Te vi quando espiou para ver se eu estava em casa. Anotei a música. Depois percebi que Dave Hause calhou bem na hora…”

E a frase que saia do rádio dela no desenho, coroou o momento… “But I don’t want to do it alone. I’m no good here on my own…”