É engraçado ver o quanto mudamos- e muitas vezes em um curto espaço de tempo. As ideias já não batem, os planos se dissolvem, as prioridades se invertem e as amizades se esvaziam…
Algumas vezes, a solidão fica sendo a melhor companhia para dias sem sentido. Há alguns anos, ficar em casa era um aperto no coração angustiante, mas hoje eu fujo completamente de programas desconexos com minha realidade. Balada estranha? Prefiro um lanche gorduroso com uma cerveja. Festa às 23h com sertanejo? Estou revendo uma série no Netflix…
Hoje o mais certo é tamborilar os dedos pelos meus sonhos de cinco anos atrás e ver o quanto eles não fazem mais sentido. Eu não sei se eu cresci, fiquei ranzinza e chato ou se esses sonhos foram feitos durante o efeito de alguma droga alucinógena. Gosto da minha casa, gosto do meu canto e de ficar pensando nos meus erros e acertos. Ouço uma infinidade de sons por aqui, das duas avenidas vizinhas, dos vizinhos e loucos churrascos feitos na casa ao lado e risadas tão estranhas que o bafômetro do sexto andar acusou um nível de álcool exorbitante.
Pareço cada dia mais habitante de outro lugar. Gosto da minha companhia solitária, de relembrar onde estive e o que passei até chegar aqui. Minha bagagem guia meus sonhos e ainda tenho um espaço para alguém compartilhar isso. O problema é achar quem queira. Gostos não batem, músicas não tocam, piadas não são engraçadas, horários não se encaixam e até a garota vizinha daqui, parece morar longe demais para marcar um bar apenas para um pré-sexo.
Outro dia fui sair com uma garota e falamos sobre viagens e de como o mundo é mais do que o que conhecemos. Logo me empolguei com a ideia do assunto, como há tempos não me via radiante. O problema foi que a garota queria ser sempre mais. Conhecer Barcelona não era legal, o bom era Nova York. O mar da Croácia era bonito, mas não era Miami Beach. Ter visto a torre do Big Ben não era nada perto da Estátua da Liberdade. Até as viagens em comum eram motivo de uma disputa irresponsável sobre quem conhecia mais. Siga La Vaca era nojento, Recoleta não presta, Mercado Municipal de Santiago é sujo, bom é Concha y Toro. Viña del Mar é maravilhosa. Atacama? Eu não sou muito chegada em deserto e paisagem eu vejo em fotos… Broxei em 5 minutos de um papo que poderia ser tão agregador quanto desbravador para velhas (e esquecidas) memórias. Ou seja, pedi a conta, voltei pra casa e dormi antes das 23h para não atrapalhar meu futebol de sábado…
O mundo mudou e eu devia estar bêbado quando entregaram a nova cartilha de como sobreviver na selva existente hoje. As roupas são todas iguais, o estilo é sempre o mesmo e isso causa outro problema nas pessoas que buscam alguém para completar seus espaços conhecidos: Ficamos MUITO críticos. Duvidamos de como as pessoas podem ser legais e parecidas conosco. Somos mais preconceituosos com base em um passado que não conhecemos. Criamos uma “guerra” de perguntas transcritas para ver se os pré-requisitos batem e podemos “nos dar ao luxo” de conhecer novas pessoas. Não abrimos mão de nossa pseudo fortaleza, e tirar um sorriso de “sim” é tão difícil quanto a crise hídrica passar no meio da seca.
Às vezes penso que gostava mais da minha versão foda-se, de me atirar em relacionamentos furados, em ir para lugares que não me agregavam em nada e só consumiam o dinheiro que lutava para ganhar. Mas é engraçado pensar nisso hoje, no escuro da minha sala, com um filme qualquer passando na TV – que está no mudo para não me atrapalhar, e com o interfone tocando anunciando que a pizza chegou… Ou seja, eu estou mais perdido que o cego no tiroteio, ele pode se abaixar e eu já nem sei como devo me chamar nessa perdição.
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