A emoção se reservou para o último dia. Nos últimos quilômetros vividos dessa jornada, o choro que lavou a alma foi o protagonista que faltava para encerrar todos os pontos vividos…
Confesso que desde a preparação eu ficava imaginando quando a emoção chegaria. Quando as lágrimas simplesmente tomassem o controle da razão e brotassem no meu rosto, limpassem a alma e aliviassem as dores vividas. Vi muitos dos meus novos amigos chorarem, externarem seus fantasmas, medos e dúvidas, nos dias que passamos juntos. Vi pessoas no Caminho chorando e que nem tenho ideia do motivo. Parecia banal, mas simplesmente desejava “Bom Caminho” e seguia. Não tinha porque perguntar se estavam bem ou não. É uma regra velada e respeitada. Naqueles tantos quilômetros caminhados, aprendemos todos os limites pessoais e impessoais existentes, assim que o melhor sempre era seguir adiante e, se a pessoa desejasse, ela se abriria sem perguntas ou pressões…
Mas comigo ainda não havia acontecido nada espetacular durante as etapas para que o choro simplesmente fluísse, como vi acontecer com John e com a Rubi nos dias anteriores. Era como se eu ainda estivesse me acostumando com as situações e momentos.
Nos últimos dois dias do Caminho, resolvi retornar às etapas sozinho. Fiz isso para encerrar todo aquele plano que havia iniciado anos antes. E também seria mais uma oportunidade para focar novamente na razão de estar ali – ou seja, meu plano basicamente era simplesmente caminhar e agradecer a tudo que tive na vida. E nas duas últimas etapas, parece que o terreno foi se preparando. Isso aconteceu no dia seguinte que havia conhecido o Alessandro e a Kristyna – entre Cancela e Padrón. Saí do Albergue às 5h10, porque não tinha mais sono, e uma chuva de leve já caía. A previsão era chuva forte, mas nem nos meus piores pensamentos eu poderia imaginar o nível de chuva…
Era uma chuva torrencial. Uma chuva tão louca e intensa que parecia vir de diferentes lados e que acabava encharcando todos os pontos do corpo. A etapa, que não era tão complicada no papel, foi tão intensa, por conta do peso da chuva que meu foco naquele dia era apenas me manter “em pé” e agradecer para sobreviver àquele dia.
Quando finalmente cheguei à Padrón, estava completamente esgotado. Não tinha energia praticamente para fazer nada. Fiz o check-in no Hostel, arranquei a roupa e tomei um banho quente. Tinha que comer, porque não tinha almoçado e nem comido nada durante o dia… Eram quase 15h30 da tarde e eu simplesmente sentado na minha cama, ainda tentando entender o que havia sido aquela etapa.
Quando de repente, escuto uma voz “Oh Matheus! Você aqui” – era o Luís, um português que faz o Caminho todos os anos e caminha como um carro (ele fez o Caminho desde Lisboa na mesma quantidade de dias que eu fiz desde de Coimbra – o cara é um bruto!). Nos conhecemos por minutos durante as etapas que ele nos ultrapassava e trocávamos meia dúzia de palavras. Creio que por praticamente 1 semana a mesma cena se repetia: No meio da manhã, ele aparecia, conversávamos um pouco e ele seguia no seu ritmo alucinado. Como ele era português, foi a chance que tive de “falar no mesmo idioma” (por incrível que pareça, não conheci nenhum brasileiro durante o Caminho) e passamos aquela última tarde/noite conversando e compartilhando as ansiedades e momentos. Quando íamos jantar, a Kristyna também chegava no albergue, assim que a esperamos e fomos jantar.
Era nossa última noite de Caminho, eu estava ansioso por todo o “fim” e os dois, que já haviam feito o Caminho inúmeras vezes, acho que gostaram de ver (e talvez relembrar) da ansiedade e alegria de primeira viagem. Ninguém falava em “fim” – era apenas mais uma etapa em um Caminho que a gente compartilhava. Fui dormir pensando “talvez tenha sido a última vez que vejo eles e nem me despedi…” – Mas nunca é o fim.
Na manhã seguinte, acordei às 5h10 e saí do albergue às 6h da manhã. Começamos eu e o Luís juntos. Por 40 minutos consegui acompanhar o seu ritmo acelerado e inclusive brincamos sobre esse meu medo do joelho estourar. Repito aqui a mesma história contada no 1º livro do Caminho, porque vale a menção honrosa e que hoje, lembrando melhor de toda a história vivida, foi o primeiro gatilho que me emocionou de verdade.
“Antes dele seguir a sua caminhada e eu me manter vivo com o joelho (porque não queria forçar na chuva desnecessariamente), ele me disse: “Matheus, você reparou que o teu joelho sobreviveu? No primeiro dia que a gente se conheceu você me falou dele e eu falei para você ficar tranquilo, lembra? Viu como eu estava certo? É a magia disso, nada que possa te fazer ruim, vai acontecer… Nos vemos em Santiago daqui a pouco!” e seguiu pela estrada para um atalho, mas eu segui o caminho normal pela trilha, com a lanterna ligada e a chuva caindo mais forte. Menos de dez minutos depois chorei copiosamente de alegria por entender tudo o que havia “ganho” naqueles últimos 14 dias.”
Trecho integral, retirado do meu primeiro livro sobre o Caminho de Compostela “Retratos de Um Caminho”.
Naquele momento eu novamente tinha algo inesperado do Caminho: respostas. Eu que apenas estava ali para agradecer, no final saí com mais coisas do que pensava.
Basicamente 1 hora depois de me separar do Luís e chorar pela primeira vez, parei para uma água e tentar me recompor dessa emoção. Era curioso que estava caminhando quase há 2 horas e não havia cruzado com nenhum outro peregrino – o que era estranho e confuso, sendo que já passavam das 7h da manhã, que é a hora que as pessoas normalmente já estavam no Caminho. Mas não naquele dia…
Quando terminava meu pequeno descanso, vejo uma pessoa se aproximando: Era o Alessandro.
“Matheus! Falei que não seria a última vez que te encontrava!”
Dali fomos caminhando, também em ritmo acelerado, durante quase 2h. Nesse tempo falamos sobre todos os assuntos possíveis. Era engraçado como me sentia a vontade com ele. O Alessandro é o gringo que melhor fala português que eu conheci na vida, mas disparado. Ele tem uma fluência e uma gramática assustadora. Muitas das vezes ele falava algumas palavras que eu mesmo havia “esquecido” que existiam.
Sabe-se Deus quando, eu decidi falar sobre o que eu havia vivido no Caminho. Não nomeei nenhuma pessoa ou situação, mas contei tudo porque tive vontade de compartilhar e também ver algumas reações. Contei do primeiro grande “choque” do Caminho em Grijó, que o Alessandro apenas fez um gesto com a mão dizendo “viu? É sobre isso…” e todas as outras situações, sentimentos, luzes e “proteção” que sentia ali – Pode parecer estranho e abstrato, mas desde que eu “entendi” o Caminho, os medos e receios de dar algo errado, simplesmente sumiram da minha cabeça. Por isso que chorei quando o Luís comentou do joelho – porque eu me preocupei tanto com isso que não reparei antes de todo o poder que existia por ali.
Nessa minha “confissão” para o Alessandro, tudo foi ficando mais claro. O peso de agradecer foi sumindo, porque já estava terminado. Os medos físicos já não existiam e o que apenas restava no meu coração eram os meus “fantasmas” – que acabei percebendo que eu era o único responsável por eles…
Repito aqui as palavras do Alessandro antes de nos despedirem e de eu cair em um choro que foi realmente o que limpou a minha alma, como há muito não acontecia…
Antes de partir, ele me falou: “Só uma última coisa que eu comentei ontem e acho que vale para nossos cem assuntos de agora, mas que você já sabe: O Caminho não te dá nada. Você consegue as coisas estritamente necessárias para sua vida. Nada além do seu merecimento. E assim também é a vida, a gente sempre pede mais, tenta mais, quer mais. E no final acaba frustrado por inúmeros motivos. Mas, por quê? Você começou o Caminho para agradecer tudo o que você teve nos seus 40 anos e não tá cheio de coisas aí? Quantos que você conhece não tem metade disso tudo que você agradeceu? Veja quantas bênçãos existiram na sua vida… E uma última coisa: Você me motivou para eu repetir um novo Caminho nos meus 40 anos. Obrigado Matheus!” e seguiu...
Trecho integral, retirado do meu primeiro livro sobre o Caminho de Compostela “Retratos de Um Caminho”.
Chorei por horas. Até hoje não tenho muita noção daquele momento. Era algo que eu não tinha imaginado. Era um choro incontrolável. Que brotava no meu rosto e eu não conseguia falar qualquer coisa – eu simplesmente chorava.
Naquelas horas, eu me culpei por tudo o que havia feito, por tudo o que havia criado erroneamente. Me culpei pela solidão que me forcei. Me culpei pela busca incontrolável de me provar, quando na verdade não era necessário. Me culpei pela distância. Me culpei pelas escolhas. Me alegrei pelas vitórias. Me enchi de esperanças pelas memórias. E chorei, ainda mais, por ter enfrentado um desconhecido tão cruel e ter saído vencedor e muito melhor – e maior – que quando comecei. Chorei tanto que não consigo encontrar palavras para descrever…
E faltando 1h30 para chegar à Santiago de Compostela, eu parei na placa dos “6.66 km” e agradeci pela última vez e dei por encerrado o meu Caminho de Compostela.
Encerrei ali, porque havia compreendido, finalmente, que o que eu estava vivendo ali não era o fim ou a conclusão de um Caminho… Era o início de uma nova jornada…
Escrevi no diário exatamente as sensações existentes:
“No meio desses encontros consegui chorar pela 1ª vez desde que iniciei em Coimbra. Chorei lembrando do último jogo de futebol e chorei mais ainda quando percebi porque resolvi fazer o Caminho. Nessa crise de choro, agradeci aos que duvidaram de mim, porque eu muitas vezes duvidei de mim mesmo. Agradeci aos que me prejudicaram de qualquer forma, porque eu mesmo me prejudiquei durante anos. Chorei ao fim dessa jornada, porque percebi que Compostela não é o fim, mas o início. O início de mudanças, o início de um novo ciclo. Um início de uma nova vida, deixando para trás todo o peso morto que levo anos carregando comigo…”
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