Apesar da mochila ser o item mais complicado de se manejar – e controlar – no Caminho, você acaba percebendo desde os primeiros passos que o peso carregado vai muito além das roupas e equipamentos…
Existem dois tipos principais de pesos que não são fáceis de controlar…
O primeiro é até fácil de falar… Pois nada mais são que pensamentos, culpas, medos, angústias, palavras não ditas, discussões mal terminadas, decisões postergadas, desvios de rota e planos desfeitos que pesam muito mais que os quilos que nos preparamos e treinamos para aguentar. Pesam porque são como medidas diferentes. Não sabemos especificar o que são 500 gramas de uma angústia sobre um trabalho que te consome. Ou até mesmo 300 gramas das culpas que levamos por falhas e demais situações da nossa vida. Elas não pesam como esperamos e nem como queremos. Seu peso é dinâmico e volátil. Mudam e se intensificam dependendo da hora do dia. Dependendo da atenção que damos a eles e até mesmo mudam quando pensamos e colocamos eles numa perspectiva de ator principal na nossa mente.
Seriam como nossos fantasmas mais temidos e que tentam mostrar suas forças, razões e motivos para continuarem existindo em nossos pensamentos e em nossos corações.
Só que chega um momento onde devemos questionar e enfrentar tudo isso. Chega um momento da vida que eles já não merecem nossa atenção e muito menos uma “casa” em nossas vidas. Aí o momento de confronto surge e é nossa missão terminar com aquilo.
Vejo que respondi à pergunta “O que espero dessa viagem?”, presente no Diário do Caminho, com “Superar meus medos e receios. Aprender a como superar os limites existentes”.
Ou seja, esses dois fantasmas já existiam e conviviam comigo bem antes de iniciar o primeiro passo no Caminho. Logo, precisava enfrenta-los e entender que eles não eram maiores que eu e nem que deviam estar por aqui.
Em outras partes do Diário, escrevo:
“Tenho medo. Tenho aflição. Tenho vontade de chorar, mas preciso continuar e ao menos tentar…”
“Talvez ter preparado uma etapa de 35km tenha sido errada. Não sei se meu corpo aguentará…”
Mostrando que esses fantasmas povoavam a minha mente durante os primeiros dias do Caminho. Pouco a pouco, esses medos foram perdendo as forças quando completava as etapas e meu corpo reagia super bem, sem dores, bolhas ou maiores complicações. Daí, comecei a enfrentar todos esses medos e receios, colocando-os para fora e provando que minha preparação havia sido boa o suficiente para aguentar esses tantos passos e troços de caminho.
E fui travando todas essas batalhas.
Entre silêncios que diziam muito. Entre conversas filosofais que mostravam a direção. E até entre lágrimas que se transformaram em gargalhadas em poucos passos…
Naqueles dias todos consegui refazer diálogos perdidos, compreendi situações, revivi meus melhores e piores momentos, mudando de perspectiva e tentando encontrar possíveis respostas para perguntas que nunca tive coragem de fazer. Recordei momentos que pareciam esquecidos. Relembrei momentos que ficaram inacabados em minha vida. Relembrei das “derrotas” que havia vivido e que ali pude iluminá-las de maneira correta e ver o quanto elas haviam me ensinado para o futuro.
Entre tropeços e ajustes de postura, fui ficando mais leve. Entre discussões silenciosas e pazes comigo mesmo, fui limpando meu espírito. Entre decisões, fui ganhando mais vida. Entre as angústias que resolvi, chorei de alegria por ver que não passavam de bobeira perante ao que havia criado e conquistado nos meus passos…
Chorei copiosamente apenas no último dia de Caminho. Não foi planejado e muito menos forçado. Mas depois de tantas emoções e situações, estava pronto para entender tudo o que havia ouvido e vivenciado sobre como o Caminho transforma, sem manual ou regras.
Escrevi na última página do meu Diário:
“Lembrarei dos que duvidaram de mim, porque eu mesmo duvidei de mim durante muitos anos. E agora sim entendo que Compostela não é o fim, mas sim o começo. O começo de uma vida nova, sem o peso morto dos medos e questionamentos que não servem mais, mas ainda, por algum motivo qualquer, os alimentávamos dentro de nós. Agora sigo uma vida nova, meu KM 0, livre e muito mais leve do que quando iniciei há 407km atrás…”
Quando compreendi que estava carregando muito mais que os 8.5 quilos da Mochila, consegui encontrar a coragem para colocar todos esses medos, fantasmas e angústias para fora e lutar contra cada um deles, não para celebrar a vitória, mas sim por entender e concluir que eles já não tinham força alguma em minha vida. Eles apenas existiam porque eu os alimentava – com meus receios, com minhas inseguranças e por duvidar do meu potencial. Quando os matei definitivamente, até a minha mochila ficou mais leve e fácil de carregar.
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