A cidade já acordava torta. Um bafo quente de concreto, suor e desespero. Cheirava a noite mal lavada, com gosto de vodca ruim, cigarro barato e promessas que ninguém quis cumprir…

A cidade suava culpa pelas calçadas, chorava ressaca nas janelas embaçadas, gemia nos motores que engasgavam nos sinais — e traziam aflições para aqueles que tentavam encontrar o ordinário, ou ao menos um pouco de paz por ali.

Ainda havia alguns perdidos que buscavam poesia nas rachaduras do dia. Tentavam pescar beleza no asfalto esfarelado, nos postes piscando como se chorassem luz, nos rostos apagados que carregavam olhos vazios e pressa demais. Esperavam um milagre — como quem se agarra a uma esperança embriagada — de que um brilho repentino devolvesse aos tempos a imagem daquele amor puro que um dia imaginaram viver ali.

Mas não acontecia nada. Não aparecia nada. Não mudava nada.

Cada dia era um aceno de costas. Parecia que algo invisível e asqueroso engolia a fé deles, junto com os bueiros entupidos e os bares sempre lotados demais. E gritando demais. E caóticos demais. E quentes demais…

No final, fugiam. Para perto, para um buraco, ou para longe. Queriam novamente o silêncio — aquele que nunca foi ingrediente daquele amor. A cidade sempre berrou, a céu aberto e com seus ratos alegres, um pesadelo difícil de acompanhar…

Mas, por algum motivo, eles ainda buscavam. Eles ainda esperavam. Eles ainda sonhavam…

Andavam como quem dança sem saber o ritmo, tropeçando em sentimentos duros, colecionando pequenos colapsos entre um gole e outro. Queriam encontrar inspiração, mas só achavam cacos. Cacos e fragmentos do que já foi uma poesia — mas que agora que não compreendem o idioma, quiçá consigam completar aquelas estrofes perdidas.

E seguiam…

Com mais ressaca.

Vomitando suas angústias nos bueiros, para alimentar seus ratos invisíveis.

No fundo, talvez soubessem. Aquela cidade havia morrido. Tudo não passou de uma ilusão barata.

Foram enganados. Foram feitos de trouxas por acreditar que aquela cidade seria sua para sempre…