Uma semana depois e a sensação de invasão da primeira consulta ainda ecoava. Sentei-me na mesma poltrona de couro marrom. O terapeuta me observou em silêncio por alguns instantes, cruzando os braços. O tom dele hoje começou ligeiramente mais afiado.
Eu tenho uma enxaqueca das ideias que me fizeram ficar parado no tempo. Tenho dúzias de cartas que nunca consegui enviar. Tenho pesadelos com o silêncio que se instaurou por estes cantos…
Ali estava em minha primeira sessão. Me ajeitei da melhor maneira possível e não pude deixar um leve sorriso irônico brotar no meu rosto. Eu jamais me imaginei naquela situação…
Sou como todos os que passam por mim: tenho anseios, sonhos e brinco de que a vida seria melhor do lado de lá. Mas sei que o “lado de lá” é tão frágil quanto um cristal caindo do décimo andar…
Talvez fosse aquilo que chamam de fundo do poço. Não tinha mais energia para a rotina, não tinha mais chama de alegria e algumas vezes sentia meu coração palpitar apenas de pensar no dia seguinte…
Ela trazia uma mala de sonhos em forma de planos abstratos. Um coração aberto para o novo, esquecendo um passado recente que atormentava seus pensamentos…
A chuva de quarta-feira tinha o peso de um segredo revelado e o cheiro de asfalto úmido que limpa a poeira das mágoas…
Preciso de uma sutileza que acalme meus pontos soltos de distorção…
Ela escrevia um diário com a própria letra. Deixava as ideias fluírem por uma semana completa e assim revivia cada momento para detalhar perfeitamente todos os acontecimentos…