Os dias seguintes foram com essa base de amizade feitas. Durante dias compartilhamos os passos, as etapas e as angústias que cada um trazia na sua mochila…
Não é algo mandatório, mas geralmente as pessoas fazem o Caminho para encontrar luz em alguma questão complicada de sua vida. E isso se torna visível quando os dias vão passando, o esforço cobra um preço alto e você começa a perceber nas outras pessoas que elas também estão lutando com o seu próprio “Peso não físico” como expliquei anteriormente. E esse ponto é o mais pessoal possível. Mesmo o Jhon, que logo no início me explicou sua razão de estar ali, demorou algumas horas e algumas boas doses de coragem para realmente comentar o que lhe fez perder sua fé e começar seu questionamento – ali o verdadeiro “peso” para ele naquela jornada. Outras pessoas tardam mais e as vezes, como eu mesmo, só fui comentar com poucas pessoas o motivo das lágrimas no último dia de Caminho…
Mas seguíamos nossos passos, vencendo nossas etapas e chegando cada vez mais perto do nosso destino – que até então era a “simples” Santiago de Compostela. Mas até chegar lá, tínhamos praticamente todo o tempo do mundo para refletir e desabafar…
Depois da pior etapa do Caminho, de Ponte de Lima até Valença (última cidade de Portugal do Caminho), a Rubi resolveu desabafar. Estávamos os dois exaustos da etapa – começamos às 4h30 da manhã, caminhamos por 38 km, com a Serra da LaBruja no meio, com suas pedras, terreno irregular e uma subida impiedosa. Chegamos em Valença praticamente sem energia e eu com o tornozelo bastante inchado da etapa. Depois de um almoço generoso, estávamos sentados na sombra, em silêncio, eu com gelo no tornozelo e vendo o tempo passar…
“Desculpa, mas preciso contar o que tá no meu peito agora…”
Foram as últimas palavras antes de um monólogo que durou praticamente 20 minutos. Ela chorava, soluçava, mas continuava comentando suas angústias e frustrações. Não era uma história, era mais uma confissão que levava tempo incrustrada em sua vida – que, sabe-se Deus a razão, precisava ser extinta de sua vida…
Eu fiquei ali, ouvindo sem falar uma palavra – talvez por respeito, mas muito provavelmente por não ter direito de opinar sobre aqueles pontos. Ouvi tudo, sofrendo de outra perspectiva, tentando entender os outros pormenores e vendo como cada situação tinha moldado um pouco aquela mulher que havia conhecido há 4 dias e que eu sabia, desde os primeiros momentos, que carregava muitos fantasmas por detrás da imagem que tentava transmitir…
No final, ela sorriu. Pela primeira vez pude ver o sorriso verdadeiro dela. Sem “filtros” ou máscaras. Finalmente era a Margarita Rubi, em “carne e osso” ali na minha frente. Levantou para pegar mais cervejas e não teve vergonha alguma que as outras pessoas a vissem com o rosto todo inchado do choro de minutos antes.
E em tempo, hoje, praticamente dois anos depois desse ocorrido, eu fico feliz em ver que ela ajeitou sua vida com os seus fantasmas do passado e agora tem uma relação harmoniosa com todos aqueles que fizeram ela chorar antes.
“Nossa Matheus… Cada vez que me dou conta disso eu lembro daquela tarde. Você é o único que sabe de toda a história e fico feliz que tenha lembrado disso, porque eu lembro de cada segundo do meu desabafo. E obrigado por você não ter saído correndo depois de ver uma louca chorando e contando seus desabafos. Realmente, o Caminho é especial…”
Foi sua mensagem no início desse ano, depois que eu vi uma foto em seu Instagram e a felicitei por ver tudo resolvido na sua vida.
Passado alguns dias, acabei ficando no albergue de peregrinos mais “tradicional” de todo o Caminho. Localizado em “A Cancela”, foi a etapa 11 (a antepenúltima do Caminho) e ali conheci o Alessandro. Um italiano, de seus 30 e poucos anos, que morou por 2 anos no Brasil fazendo voluntariado em tribo indígena, e fala perfeitamente português. Conversamos por horas, mesmo ele sendo tímido e não falando muito bem em inglês para interagir com os demais peregrinos, notei uma aura praticamente “religiosa” nele. Ele já estava quando chegamos no Albergue e anotava todos os pensamentos do dia em um diário praticamente como o meu. Fechava os olhos, relembrava, e anotava algumas frases. Sua letra era praticamente uma obra de arte – pequena, perfeitamente alinhada e parecia que havia sido impressa e não redigida.
Não lembro quantas horas passaram, mas ele acabou confessando o que eu já havia notado…
“É o meu segundo Caminho. O primeiro fiz por fé e por devoção. Esse segundo fiz para me reencontrar. Estou perdido Matheus. Tenho minha fé inabalável, mas estou à deriva em um monte de coisa da vida. Apesar de saber que Deus tem seu plano para mim, as vezes é difícil escutar seu murmúrio aqui dentro do peito. Então eu saio e caminho sozinho, porque assim é mais fácil bloquear as distrações e ouvir Sua voz…”
“E o que você escreve afinal?”
“Tudo. As angústias, minhas eternas perguntas, minhas aflições. Mas escrevo também o que Ele fala através dos sinais. Engraçado que ele me fala mais ou menos o que você já descobriu e está fazendo aqui. Eu havia esquecido, mas já anotei aqui olha” E ele me mostrou seu diário – em italiano, mas dava para entender o que havia escrito.
“Somos ricos, Matheus. Todos nós. Temos um monte de coisa para agradecer. Você está fazendo um Caminho de 16 dias e ainda te faltam coisas para agradecer não?”
“Isso sim. Acho que a questão não seja nem agradecer, mas aprender a viver com o que temos. Essa é a parte complicada, porque nunca é o necessário na nossa perspectiva.”
“Sim. Mas é esse o exercício, não? Por exemplo, você percebeu que no Caminho você teve o necessário para viver? Nem mais, nem menos. O necessário. Escuto muitos falando ‘Ah a cama daquele albergue era ruim’, mas é engraçado que a pessoa acordou sem dores e seguiu caminhando no dia seguinte. ‘Ah mas a comida não é das melhores’, mas te matou a fome e te deu a energia necessária para continuar… O Caminho te dá exatamente o necessário, mas as pessoas têm muitas traves nos olhos e acabam não enxergando o óbvio.”
“E o Caminho te dá a fé e te mostra tudo o que você tem em vida para não estar perdido…”
“Hey! Exatamente o ponto. Eu também reclamo, mas ao menos eu enxergo e anoto para não esquecer do quão rico NÓS somos, Matheus.”
Ficamos em silêncio por uns minutos, ele relendo algumas coisas em seu diário e eu acabando minha cerveja. Levantei para ir pegar outra, acabei conversando com a Krystina, uma tcheca que depois veio a se tornar praticamente minha melhor amiga do Caminho, e retornei ao Alessandro quase 1 hora depois. Ele já estava sem seu diário e conversava com um casal da Holanda e outra alemã que havia também feito voluntariado em tribos do Brasil. Jantamos como família, celebramos mais uma união que o Caminho proporcionou e tomamos praticamente 20 garrafas de vinho.
Antes de ir dormir, o Alessandro me agradeceu pela conversa e confessou o quanto era complicado falar de si mesmo para estranhos, mas que foi muito bom para ele “se confessar” que ele estava perdido em sua vida e seus passos, ao mesmo tempo que o forçou enxergar que “seu Caminho” – e aqui ele quis dizer “sua vida”, estava iluminado e que ele deveria dar mais atenção a isso. Também me perguntou quais seriam meus planos para as próximas etapas.
“Para ser sincero Alessandro, eu vou voltar a caminhar sozinho agora. Fiz muitas etapas com a Rubi que foi muito bom, mas o que você faz me recordou que eu preciso do meu tempo agora. Comecei lá em Coimbra com uma tonelada de coisas para agradecer, mas ao mesmo tempo também tinha minhas expectativas para essa jornada. Já se foram 11 etapas e eu aprendi, ouvi, confessei e enxerguei um montão de coisas. Agora que está começando o final, preciso colocar tudo isso em perspectiva e ver tudo o que eu realmente aprendi aqui… E agradecer por tudo também.”
“Acho a escolha certa. Mas, lembre-se… Você não termina em Compostela. Você começa.”
“Eu já li essa, mas ainda não consegui compreender…”
“O Caminho te dá exatamente o que você precisa. Calma. Isso vai acontecer… E eu tenho certeza que ainda vou te encontrar. Não é um Adeus, é um até logo Matheus. Obrigado por hoje!”
E mais uma vez o Caminho me presentava com uma pessoa cheia de significados e com um monte de respostas para as minhas perguntas – o que antigamente eu chamaria de coincidência – e que seria o catalisador que faltava para eu exorcizar tudo aquilo que eu carregava e que já não teria razão para continuar comigo…
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